“É mais fácil encontrar ouro do que um coração puro como o de Domingos Sávio”, afirmava São João Bosco
O cristianismo não é uma coisa do passado, vivido como se olhássemos sempre para trás, para os tempos evangélicos, mas sempre novo, pois está marcado pela presença constante de Jesus Cristo, que está no meio de nós, e que é de hoje, ontem, amanhã e toda a eternidade. Na história da humanidade, encontramos “pegadas” de Deus. Este blogue procura, humildemente, mostrar alguma delas.
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sábado, 14 de março de 2026
Domingos Sávio, o santo de coração puro, primeiro aluno do Oratório de Dom Bosco a ser canonizado
“É mais fácil encontrar ouro do que um coração puro como o de Domingos Sávio”, afirmava São João Bosco
Sem a noção clara do que é o pecado, a santidade torna-se uma meta incompreensível
O pecado é uma palavra que hoje parece ter desaparecido. “Na consciência comum – e às vezes também na vida da Igreja – tudo é explicado como fragilidade, ferida, limite, condicionamento. Quando ainda se fala de pecado, muitas vezes ele é reduzido a um pequeno erro ou a uma fraqueza”. Se nos limitarmos a isso, desaparece também “a grandeza da liberdade humana e da sua responsabilidade”.
Se não existe mais a possibilidade de um mal verdadeiro,
não podemos acreditar nem mesmo na possibilidade de um bem verdadeiro. Se o
pecado desaparece, também a santidade se torna um destino abstrato e
incompreensível.
No pecado, o homem reconhece que “a sua liberdade é real
e que com ela pode construir e destruir: a si mesmo, aos outros, ao mundo”. É
necessária, portanto, “uma cura profunda”, por isso a conversão é “um
itinerário exigente” para recuperar a relação com Deus, uma repetição nos
gestos da escolha de viver no amor e na liberdade, mesmo com esforço, que não é
em si “estéril”, mas expressão da “fidelidade de quem já vislumbrou o sentido e
o valor do que vive”.
Padre Roberto Pasolini, Pregador da Casa Pontifícia, primeira
meditação da Quaresma, 6/3/2026 - Foto
Vatican Media
O amor à Igreja faz crescer a determinação para praticar o bem e para recusar o mal
O amor a Deus é a fonte de todas as virtudes. Quem ama se salva, porque depois praticará os Mandamentos e cultivará as melhores qualidades morais. Quem não ama, se perde, porque cortou com a raiz de todos os valores da piedade.
Quantas e quantas vezes tenho ouvido lamentações de pessoas
que apresentam dificuldades em tocar a vida espiritual, em perseverar na
prática dos Mandamentos, ou pelo menos problemas para progredir na virtude.
Qual é a solução?
Uma das muitas soluções – porque a Igreja é a cidade da
salvação onde para tudo há diversas saídas – é exatamente aumentar a nossa Fé,
é aumentar o nosso amor à Igreja Católica. Aumentando esse amor, cresce
igualmente a nossa determinação para praticar o bem e a nossa repulsa ao mal.
E, cumpre notar que, muitas vezes, as pessoas não têm suficiente aversão ao
mal, porque no fundo não têm suficiente amor à Igreja.
A Igreja é a figura de Nossa Senhora, e é resplandecente e
bela na terra, e devemos procurar amá-la a fim de nos prepararmos para amar
Nossa Senhora no Céu. É necessário que tenhamos os olhos sempre voltados para a
Igreja eterna, a Igreja imutável, que não se identifica com as misérias
presentes e transitórias, a Igreja que devemos amar acima de todas as coisas no
mundo. A Igreja na sua hierarquia, nos seus mil aspetos verdadeiramente
divinos.
Recordemos, por exemplo, tudo quanto há de belo na
infalibilidade papal, na figura de um homem infalível, governando a todos e a
todos ensinando o caminho da verdade, num governo que não é temporal, mas do
espírito. Nunca se concebeu, em matéria de governo, algo de tão bonito, de tão
nobre quanto isso.
Consideremos, de outro lado, a Eucaristia. Deus
verdadeira e realmente presente entre nós, embora oculto de modo misterioso sob
as espécies eucarísticas, conferindo ao homem a possibilidade de ter com Deus um
convívio tão íntimo e até insondável. Deus entra nesse homem e como que Se faz
um com ele. Pode-se imaginar coisa mais esplêndida do que o Todo-Poderoso
condescender em ter tal familiaridade com cada um dos homens que Ele criou?
Depois, o sacramento da Penitência. Pode-se conceber que
inferno seria o mundo sem o confessionário? Se nós não pudéssemos nos abrir
sobre os nossos pecados, e não tivéssemos a certeza do perdão? Que horror seria
a incerteza sobre se Deus nos perdoou ou não, se estamos ou não em estado de
graça, etc., etc.
Que obra-prima de sabedoria existe no confessionário, e
no facto do segredo da confissão nunca ser traído!
E quanto mais o mundo afunda numa decadência moral, mais
aparece os raios de luz que partem da Igreja, mais compreendemos o quanto ela é
bela e digna de amor.
Quando nós pensarmos em tudo isso, encontraremos mais resolução
para combater os nossos pecados e para praticar a virtude.
Que Nossa Senhora das Mercês nos ajude a isso. “mercê” é
uma graça, é um favor. Nossa Senhora das Mercês é Nossa Senhora dos favores, disposta
a todo momento a conceder-nos dons excelentes e a convidar-nos a pedi-los.
Tenhamos para com Ela esse tipo de relação muito filial e
muito confiante, certos de que sobre nós descerão as misericórdias da nossa Mãe
santíssima.
Plinio Corrêa de Oliveira
A Civilização Cristã e a irradiação do esplendor de Deus na Terra
A Igreja Católica é uma chama que reluz em qualquer atmosfera. A Igreja recebe a sua luminosidade intrínseca, não dos homens, mas do próprio Sol de Justiça que é Jesus Cristo. No entanto, é preciso não esquecer que o brilho dessa chama divina pode irradiar-se mais, ou menos, conforme a capacidade do ar em que arde.
A civilização cristã é a atmosfera serena e diáfana, que permite
a irradiação omnímoda da chama evangélica. As civilizações pagãs, pelo
contrário, saturam de vapores a atmosfera social e toldam habitualmente, com as
nuvens espessas dos preconceitos e das paixões, a plena visibilidade, a
universal irradiação do esplendor d’Aquele que foi posto como “Luz para se
revelar às nações” (Lc 2, 32).
No fim da Idade Média, essa estrutura trincou-se. Aos poucos,
agravou-se a crise, e hoje ela está em franca liquidação. Pobre e grande
civilização cristã, no caos de hoje apenas emerge um ou outro dos seus
gloriosos capitéis, as derradeiras ogivas que a sanha dos bárbaros ainda não
abateu.
Amamos estes santos e nobres destroços com o amor ardente
e as saudades abrasadoras com que os antigos judeus olhavam para as ruínas do
Templo destruído e abandonado.
Sim, amamos as ruínas, e se destas nada restasse, amaríamos
ainda sua poeira. E para nós, que estamos entre os escombros dessa grande cidadela
em ruínas, o problema não é de saber se se poupará ainda este ou aquele resto
de coluna ou de muralha. É a grande batalha que, de um momento para outro, se
começará quiçá a travar, a batalha última e decisiva há tanto tempo prenunciada
pelos De Maistre e pelos Veuillot. A grande questão é, pois, saber se, sim ou
não, a obra há de ser refeita; se os últimos destroços da Civilização Cristã
serão abatidos para dar lugar à Torre de Babel, ou se os obreiros da confusão
serão expulsos do mundo [...], se os vendilhões, os aventureiros, os apóstatas
e os demolidores de toda espécie serão escorraçados do recinto sacral do mundo
cristão, para que os filhos da luz ergam novamente a grande Cidade que é o
Reino de Deus entre os homens.
Há em gérmen uma terrível e gravíssima opção ideológica,
que nos espreita nessa tormentosa encruzilhada de caminhos políticos. Discutam
uns a quem pertencerá o mando, e outros de que maneira se organizarão as
finanças; quanto a nós, detemo-nos no marco divisor das rotas, procurando
conhecer os fantasmas confusos que nos aguardam ao longo dos caminhos... de
todos os caminhos.
Os problemas presentes contêm no seu âmago as mais radicais
consequências para o futuro, um futuro por sua vez tão grave que nele a
humanidade quase inteira pode abandonar ou reconquistar a rota da eternidade. É
esta a situação a que chegamos. Não lhe diminuamos o alcance, reduzindo-a ou
resumindo-a como se todos os interesses da Igreja se cifrassem apenas a alguns
poucos retoques no edifício social.
Plinio Corrêa de Oliveira
terça-feira, 14 de outubro de 2025
Rito penitencial e de reparação quando uma igreja é profanada
Quando uma igreja é profanada, qual é o rito penitencial e de reparação?
No Cerimonial dos Bispos, n.º 1070 a 1092, encontramos a resposta:
PRECES PÚBLICAS A FAZER QUANDO UMA IGREJA TIVER SIDO PROFANADA
Os delitos cometidos numa igreja atingem e prejudicam em certa medida toda a comunidade dos irmãos que crêem em Cristo, dos quais o edifício sagrado é sinal e imagem. Devem considerar-se tais, não só os crimes e delitos que constituem ofensa grave aos sagrados mistérios, mormente às espécies eucarísticas, e se cometem em desprezo da Igreja, mas também os que ofendem gravemente a dignidade do homem e da sociedade humana. A Igreja é violada com ações gravemente injuriosas, nela praticadas com escândalo dos fiéis, e, de tal modo graves e contrárias à santidade do lugar, que, a juízo do Ordinário do lugar, não é lícito exercer nela o culto, enquanto a injúria não for reparada por meio de rito penitencial".
A injúria feita à igreja deve ser reparada quanto antes mediante rito penitencial. Enquanto não se efetuar este rito, não se pode celebrar nela a Eucaristia nem quaisquer outros sacramentos ou ritos litúrgicos. Entretanto, através da pregação da Palavra de Deus e exercícios de piedade, convém preparar os fiéis para o rito penitencial, e, mais do que isso, renová-los interiormente por meio da celebração do sacramento da Penitência. Em sinal de penitência, o altar deve estar despido, removendo dele todos os sinais que habitualmente exprimem júbilo e alegria: luzes acesas, flores e outras coisas do gênero.
Convém que o rito penitencial seja presidido pelo Bispo da diocese, para mostrar que não é só a comunidade local, mas toda a Igreja da diocese, que se associa ao rito e está disposta à conversão e á penitência. Conforme os casos, o Bispo, juntamente com o reitor da igreja da comunidade local, determinará se deve haver celebração do Sacrifício eucarístico ou celebração da Palavra de Deus.
O rito penitencial pode celebrar-se num dia qualquer, exceto no Tríduo pascal e nos domingos e solenidades. Nada obsta, porém, e até pode convir, para não prejudicar espiritualmente os fiéis, que o rito penitencial seja celebrado na véspera de domingo ou solenidades.
Para a celebração do rito penitencial, preparar-se-á:
a) Ritual Romano, Lecionário;
b) bacia da água benta com o aspersório;
c) turíbulo com a naveta do incenso e colher;
d) cruz processional e tochas para os ministros;
e) toalhas, velas e as demais peças necessárias para ornamentação do altar;
f) tudo o que se requer para a celebração da Missa, no caso de se celebrar.
No rito penitencial, usam-se paramentos roxos ou de cor penitencial, segundo os costumes locais, salvo se for celebrada Missa que exija paramentos doutra cor.
Preparar-se-á:
− para o Bispo: alva, cruz peitoral, estola, pluvial ou casula, mitra, báculo pastoral;
− para os concelebrantes: paramentos para a Missa;
− para os diáconos: alvas, estolas e, eventualmente, dalmáticas;
− para os restantes ministros: alvas ou outras vestes devidamente aprovadas.
O rito de reparação por uma igreja profanada, tal como descrito no Cerimonial dos Bispos, representa uma das formas mais solenes de súplica pública na liturgia católica. Quando numa igreja ocorrem atos "gravemente injuriosos" — como ofensas aos sagrados mistérios, gestos blasfemos ou atos contra a dignidade humana — o local perde a sua adequação ao culto até ser conciliado com um rito penitencial.O Cerimonial estabelece que o Bispo diocesano preside à celebração, para exprimir a participação de toda a Igreja local na dor e na reparação. O rito, geralmente ligado à Celebração Eucarística, inicia-se com uma procissão penitencial da igreja mais próxima ou de um local adequado até à igreja profanada. Uma vez no interior, o Bispo asperge o Altar e as paredes com água benta, símbolo de purificação. Segue-se a Liturgia da Palavra, com leituras que evocam a conversão e o perdão, e a Santa Missa, em que o altar é rededicado à presença real do Senhor.
O rito oferece uma variedade de oportunidades pastorais: a possibilidade de envolver toda a comunidade diocesana, de unir a reparação litúrgica à conversão pessoal dos fiéis através da pregação e da confissão, e de reconstruir a comunhão eclesial ferida pelo pecado. Deste modo, o rito não é meramente um acto jurídico ou formal, mas torna-se um gesto eclesial de purificação, penitência e renascimento, no qual a comunidade reconhece a sua fragilidade e renova a sua fé no mistério de Cristo que «renova todas as coisas».
Santa Teresa de Ávila e a Contra-Reforma
Celebramos, no dia 15 de outubro, Santa Teresa de Jesus, Religiosa, doutora da Igreja e Fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças.
No primeiro capítulo de sua obra "O caminho de perfeição", Teresa explica os motivos que a levaram a estabelecer uma observância tão rigorosa no mosteiro carmelita de São José de Ávila:
“Tendo conhecimento dos desastres em França, da devastação que aí faziam os heréticos, e como essa infeliz seita [protestantes] aí se fortificava dia a dia, fui por isso tão vivamente tocada que, como se eu pudesse alguma coisa, ou se eu fosse alguma coisa, chorava em presença de Deus e implorava que remediasse tão grande mal. Parecia-me que eu teria dado mil vidas para salvar um só do grande número de almas que se perdiam nesse reino. Mas vendo que era somente uma mulher e ainda tão má e totalmente incapaz de prestar a Deus o serviço que eu desejava, acreditei, como acredito ainda que, pois como há tantos inimigos e tão pouco amigos, eu devia trabalhar o quanto pudesse para fazer com que esses últimos fossem bons.
“Assim, tomei a resolução de fazer o que dependia de mim para praticar os conselhos evangélicos com maior perfeição que pudesse, e procurar levar esse pequeno número de religiosas que estão aqui, a fazer a mesma coisa. Nesse sentido, confiei-me à bondade de Deus, que não deixa jamais de assistir àqueles que a tudo renunciam por seu amor.
“Esperei que essas boas jovens, sendo como o meu desejo as figurava, os meus defeitos seriam cobertos pelas suas virtudes e poderíamos contentar a Deus em alguma coisa, ocupando-nos todas em rezar pelos pregadores, pelos defensores da Igreja e pelos homens sábios que sustentam discussões. Pois assim faríamos o que estava ao nosso alcance para socorrer p nosso Mestre, que esses traidores, que Lhe devem tantos benefícios, tratam com tanta indignidade, que parecem querer crucificá-Lo ainda e não deixar lugar algum onde Ele pudesse repousar a cabeça”.
A reflexão de Santa Teresa é lindíssima. Era uma simples religiosa de um convento carmelita, não propriamente corrupto, mas relaxado e ela mesmo tendo passado muito tempo na tibieza e na mediocridade no amor de Deus. Ouviu falar nas devastações que o protestantismo estava fazendo na França, naquele tempo, muito grandes. Os protestantes tinham conquistado completamente um pequeno Reino que havia no Sul, que era o Reino de Navarra, cuja rainha Jeanne, e mais tarde o filho dela, o rei Henrique, futuro Henrique IV da França, eram protestantes militantes.
Por outro lado, um terço da França tinha-se tornado protestante, cometendo os seus adeptos toda a espécie de blasfémias, opressões às igrejas, depredações pavorosas, em suma, um verdadeiro incêndio religioso na França.
A notícia desse facto chega à Espanha e ao conhecimento dessa freira então um tanto medíocre. E aí a graça de Deus toca a sua alma e compreende o imenso desastre que isso representava. E em vez de ficar com ideias nacionalistas idiotas, pensando: Aquilo é a França, eu estou na Espanha e não tenho nada que ver com o que se passa lá, compreendendo a universalidade da religião Católica, a universalidade da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, entendeu também que isso era um verdadeiro desastre para o mundo católico inteiro. Então pôs-se a chorar copiosamente e daí veio a ideia de sua conversão.
Como isto se deu? Ela o expõe apenas muito de passagem aqui, mas em outros trechos isso fica mais claro.
Seu raciocínio foi: Eu sou uma simples religiosa e não posso, eu, como mulher, fazer nada. A não ser o seguinte: os amigos de Deus são poucos e tíbios. Os inimigos de Deus são muitos e ardorosos. Eu devo, portanto, rezar, imolar-me, renunciar a tudo para que os amigos de Deus se tornem mais fortes e sejam capazes de fazer face aos inimigos de Deus. Então, afervorar os católicos, catolicizar os católicos era o meio de levar o inimigo à derrota.
Então, para consegui-lo, era preciso tomar algumas freiras que estavam ao seu alcance e fazer com que elas freiras se imolassem, rezassem; ela mesma também passar da mediocridade para o fervor, para conseguir que os pregadores, os doutores, os que lutavam pelas armas católicas se tornassem capazes de derrotar os protestantes. Então, dessa ideia veio a reforma do Carmelo. E naturalmente graças incontáveis que se derramaram sobre a França em consequência das orações das carmelitas.
Os senhores estão vendo por aí que se trata de uma ideia altamente teológica e altamente sapiencial que inspirou tal movimento. A ideia da Comunhão dos santos, do valor preponderante da oração e do sacrifício para a Igreja vencer as suas grandes batalhas; a ideia de catolicizar os católicos como meio de deter o furor e vencer os que não são católicos. E, por fim, a ideia de uma reforma de uma Ordem religiosa especialmente para isso. É uma concatenação de ideias esplêndidas que se ligam umas às outras e que têm como desfecho a reforma da Ordem do Carmo.
É isso que explica aos senhores esse fato curioso: Santa Teresa de Jesus, apenas o que fez foi reformar a Ordem do Carmo. O Carmelo é uma Ordem de reclusas e estabelecer a reforma dos Carmelitas descalços, que não são reclusos. A obra em si, humanamente falando, não é tão extraordinária. O que representa triplicar o número de conventos de religiosas trancadas no seu convento? Multiplicar o número de padres, vamos dizer, de padres fervorosos, só isso a mais?
Entretanto, não há História da Igreja um pouco cuidadosa, que não mencione entre os principais fatos da Contrarreforma, a reforma teresiana do Carmelo. Porquê? Porque ela teve um efeito extraordinário em toda a Cristandade.
O fervor aumentou em toda a Igreja; em torno das carmelitas desencadeou-se um movimento de afervoramento, movimento este que foi dos maiores, mais vigorosos da Contrarreforma. Os Padres carmelitas também atuaram da mesma maneira. Quer dizer, uma ação que era maior do que os meios humanos, empreendeu uma expansão de um espírito, de uma mentalidade, de uma atitude de alma, que tinha como consequência um afervoramento geral dos católicos, e fazendo, portanto, da obra de Santa Teresa uma das grandes realizações da Contrarreforma.
O curioso é que isso se explica muito mais pelo lado sobrenatural do que pelo natural. E nos mostra, por outro lado, quanta razão temos ao dar prioridade à vida interior sobre a vida ativa; em catolicizar os católicos, sobre a preocupação de conquistar não católicos para a Igreja; a ideia de que a oração e o sofrimento valem mais, na luta contra os adversários, do que a ação; o desejo, entretanto, ardente, da ação e da ação levada até suas últimas audácias, que caracterizavam o espírito de Santa Teresa de Jesus. Tudo faz com que percebamos, em sua grande autoridade, quantas conceções nossas são verdadeiras e quanto, portanto, nós a ela devemos ser fiéis.
É preciso dizer que esse extravasamento do zelo de Santa Teresa de Jesus para a França produziu a implantação da reforma do Carmelo também lá, feita por uma das suas discípulas. Daí decorreu, no “doux pays de France”, um florescimento carmelitano, o qual por sua vez produziu como flor mais recente e estupenda, flor igual às maiores flores – e exatamente disse a “mais recente” evitando a palavra “última”, porque foi o ponto de partida de novos florescimentos – Santa Teresinha do Menino Jesus.
Devemos ver, portanto, em Santa Teresinha do Menino Jesus mais uma expansão desse zelo pela França de Santa Teresa, a Grande, que produziu depois o nascer, na França e depois fora dela, de toda a imensa família das pequenas almas estimuladas, suscitadas e – eu diria – espiritualmente dirigidas por Santa Teresinha do Menino Jesus.
Plinio Corrêa de Oliveira
segunda-feira, 28 de julho de 2025
O Sagrado Cinto de Nossa Senhora, venerado na Catedral de Prato, Itália
O Sagrado Cinto de Nossa Senhora, venerado na Catedral de Prato, Itália, foi trazido de Jerusalém, no ano de 1141. Trata-se de uma pequena fita de tecido com pouco mais de 80 centímetros, feita de lã muito fina, com fio de cabra ou talvez até de camelo, esverdeada, coberta de ouro.
Conta a tradição, que São Tomé encontrava-se em terras distantes quando recebeu um recado de São Pedro para que retornasse a Jerusalém, pois Nossa Senhora ia partir para a eternidade e desejava despedir-se dos discípulos do seu amado Filho. Como a viagem era longa, São Tomé só chegou depois de Nossa Senhora ter sido assunta ao Céu,
Mais uma vez o Apóstolo, levado pelo ceticismo - como sucedera com a Ressurreição do Senhor, a ponto de ter colocado o dedo nas Sagradas feridas do Salvador - relutou em acreditar na Assunção da Santíssima Virgem e pediu a São Pedro que abrisse o sepulcro, para poder comprovar com os seus próprios olhos o ocorrido. Atendido o seu pedido, constatou que no túmulo vazio encontravam-se apenas muitos lírios e rosas. Nesse mesmo momento, ao levantar as suas vistas aos céus, São Tomé viu Nossa Senhora na Glória, que, sorridente, desatou o cinto e lançou-o, como símbolo da sua benção bênção e da sua proteção.
Esta preciosa relíquia é guardada com muita devoção numa capela da majestosa Catedral de Prato, na Itália. Reza a tradição ainda que esse é o Santo cinto que os apóstolos ataram sobre o ventre de Maria Santíssima antes do seu passamento para o Céu. Provavelmente é uma relíquia de "contato", ou seja, esteve integrada ao cinto original perdido. Mas isso não diminuiu a sua importância: passados muitos séculos segue sendo um símbolo diante do qual, em Prato, todos se recolhem, crentes ou não.
Conta a tradição ainda que entre os dias 27 e 28 de julho de 1312, o clérigo de Pistoia, Musciattino, tentou roubar o Sagrado Cinto e levá-lo para a sua cidade.
A história é conhecida por todos os habitantes de Prato, que pelo menos uma vez na vida procuraram a marca da mão do ladrão, decepada e atirada contra a igreja por uma multidão enfurecida. Reza a lenda que a marca vermelho-sangue se encontra na arquitrave da segunda porta do lado sul, a mais próxima da torre dos sinos.
O evento é certamente macabro, mas confirma o forte e secular laço entre o Cinto de Nossa Senhora e a comunidade da cidade, um afeto e uma devoção perdidos nas brumas do tempo.
Por isso, no dia 28 de julho, segundo o calendário "próprio", celebra-se a festa de Nossa Senhora do Sagrado Cinto, a preciosa relíquia que simboliza a cidade e a Igreja de Prato.
O aniversário neste ano foi comemorado na catedral às 9h00 com a recitação do terço e às 9h30 com uma missa na Capela do Sagrado Cinto, presidida pelo pároco, Cónego Marco Pratesi, e concelebrada pelo Cabido da Catedral. Neste dia, assistindo aos serviços religiosos programados ou pelo menos visitando devotamente a catedral, pode obter-se uma indulgência plenária nas condições habituais (confissão e comunhão sacramental, recitação do Pai Nosso e do Credo e oração pelo Santo Padre). A indulgência, ou remissão dos pecados, foi concedida em 1996 em virtude do estatuto da catedral como basílica menor, conferido pelo Papa João Paulo II.
Na terça-feira, 29 de julho, o Museo dell'Opera del Duomo convida os peregrinos a reviverem um dos eventos históricos mais lendários da cidade: a tentativa de roubo do Sagrado Cinto. A noite, com início às 20h00, inclui um passeio noturno pela catedral, com foco na Capela do Sagrado Cinto.
segunda-feira, 30 de junho de 2025
A infalibilidade Papal: uma prova de que a Igreja Católica é verdadeira
Ou Deus, Inteligência Suprema, ao criar o universo dispôs que houvesse um poder ordenativo que dirigisse a mente dos homens, ou na obra-prima d’Ele, que é a alma humana, o Criador terá deixado uma lacuna e, mais ainda, um caos.
Portanto, ou há uma Igreja infalível ou Deus não existe.
Infalível, sim, pois ela em tudo coloca ordem. Se algo é verdadeiro, o é porque
toda uma linhagem de pontífices, desde São Pedro até ao seu atual sucessor,
ensina inerrantemente a verdade. Compreendendo e aceitando isso, sinto-me
tranquilo, descanso. Se todos acreditarem nisso, todas as cabeças se ordenam a
respeito do essencial do pensamento humano. Então, estabelece-se no mundo uma
ordem superior, acima de todas as outras ordens. Então a obra-prima de Deus
acha-se confirmada.
Esse é o meu sentimento em relação ao Papado. A tal ponto
que, ao ouvir falar do dogma da infalibilidade pontifícia, entusiasmei-me muito
e pensei: Até há pouco sentia-me como um homem que andava no meio de
penhascos, com medo de cair. E agora dizem-me: “Veja bem, aqui há um corrimão”.
Donde, um grande alívio! Posso, com serenidade, admirar o panorama. Chegou a minha
vez de respirar.
Porque eu vejo a minha própria falibilidade. Percebo como
posso errar. Mas, existe uma instituição de origem divina, que orienta a alma
humana desde Nosso Senhor Jesus Cristo até aos nossos dias, ensinando sempre a
mesma Fé, sem erro nenhum. Logo, todo o resto para mim se explica. Agora acho-me
à vontade para caminhar nas trilhas desse mundo. Deus, necessariamente, haveria
de fazer alguém infalível para conduzir a bom porto o coração do homem!
O corolário dessa constatação é este: de todas as religiões,
bastaria que uma ensinasse a infalibilidade, para que eu acreditasse nela.
Assim, quando me inteirei da infalibilidade papal, um brado ecoou no interior da
minha alma, uma exclamação de júbilo perto da qual a que terá brotado do peito de
Colombo ao avistar as Américas seria um riso de criança: essa Igreja em que
nasci é evidentemente verdadeira! Porque Deus, ao fazer uma Igreja autêntica,
tinha de fazê-la infalível!
Plinio Corrêa de Oliveira
O Brasil nasceu de uma realização missionária
Na época de laicismo, em que vivemos, a missão histórica de Portugal costuma ser considerada de um ponto de vista inteiramente agnóstico. O ciclo das navegações é apreciado, pela maior parte dos compêndios, apenas nos seus resultados econômicos e políticos. De nada ou quase nada tem valido, que historiadores de maior quilate tenham demonstrado coisa diversa. Acumulam-se as provas de que o primeiro móvel da alma lusa, na aventura das navegações, foi apostólico; que os desbravadores de oceanos que o pequenino Portugal deitou pela vastidão dos mares tinham alma de cruzados, e não de mascate: para a História corrente, manipulada e deformada segundo as conveniências da irreligião, a glória de Portugal continua privada do esplendor sacral e heroico dos ideais religiosos, e reduzida ao mérito sem "panache" das realizações materiais da vida burguesa.
Nada disto,
porém, altera a evidente realidade dos factos. A monarquia fidelíssima foi
essencialmente missionária. O Brasil deve a Portugal a ação missionária do
luso, a suprema graça de pertencer a Igreja. E não é só o Brasil. Nem é só a
África. Mais além, bem junto da zona conflagrada do Extremo Oriente, na Índia,
e mais além, no mundo asiático, é o esforço missionário português que deixou
fincadas as sentinelas avançadas da Religião, as colónias lusas de que se
irradia nas gentilidades vizinhas um proselitismo até hoje vivaz e fecundo.
Era bom que nos lembrassemos disto: O Brasil nasceu como uma realização missionária!
Plinio
Corrêa de Oliveira
domingo, 13 de abril de 2025
Plinio Corrêa de Oliveira: eco da Igreja Católica, Apostólica e Romana
Vós me ouvistes falar várias vezes, e nunca ouvistes de mim — quer vós, meus amigos de sempre que há trinta e quarenta anos comigo trabalhais, quer vós meus amigos de hoje que neste momento a bem dizer começais a me conhecer — a seguinte frase: eu elaborei uma doutrina, eu construí um pensamento, eu fundei uma escola, eu fiz isto, eu fiz aquilo.
Tudo quanto tenho feito na minha vida, por um dever de
justiça, na alegria e no entusiasmo da minha alma, no reconhecimento e na
gratidão, tenho apresentado como sendo doutrina da Santa Igreja Católica
Apostólica Romana.
Porque se alguma coisa em mim há de bom, não é senão
resultado do fato de que Nossa Senhora me alcançou a graça — a qual não tenho
palavras para agradecer e espero poder passar junto a Ela a eternidade inteira
agradecendo — de ter sido batizado, ser filho da Santa Igreja Católica
Apostólica Romana.
Eu não sou, eu não pretendo ser senão um sino. Menos do que
um sino: um eco do grande sino que é a Igreja Católica Apostólica Romana. Eu
pretendo prolongar esse ensinamento— não como ministro, não como mestre, mas
como discípulo fiel e transido de alegria pela glória de ser discípulo. Somos o
eco que no meio da batalha prolonga e leva ao longe a voz do sino, fazendo-a
ouvir por toda a parte.
Meu desejo na vida não é senão repetir. Repetir aquilo que
eu ouvi da Santa Igreja. Esta fidelidade que até ao dia de hoje eu mantive e
que Nossa Senhora — espero — me outorgará até o fim de meus dias.
Plinio Corrêa de Oliveira
Novas regras para os estipêndios das Missas
Arte. 1 § 1 Sem prejuízo do cân. 945 do Código de Direito Canónico, se o conselho provincial ou a reunião dos Bispos da província, tendo em conta condições como, por exemplo, o número de sacerdotes em relação aos pedidos de intenções ou o contexto social e eclesial, dentro dos limites da sua própria jurisdição, assim o determinar por decreto, os sacerdotes podem aceitar várias ofertas de diferentes ofertantes, cumulando-as com outras e satisfazendo-as com uma única Missa, celebrada segundo uma única intenção "coletiva", se - e somente se - todos os ofertantes tiverem sido informados disso e tiverem consentido livremente.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025
Elisabeta Canori Moro: Uma beata que lutou heroicamente pela salvação do seu marido infiel
Atualmente, fala-se muito da misericórdia de que muitas famílias e cônjuges feridos necessitam, sobrecarregados de problemas e conflitos que já não conseguem suportar. Talvez, no entanto, devêssemos falar primeiro da misericórdia que os mesmos cônjuges em crise poderiam humildemente exercer a partir do momento em que a família começa a fraquejar. Por vezes, para a salvar, bastaria até a misericórdia pacientemente exercida por um só dos seus membros, capaz de esperar e de amar com esperança. Tal foi a história de Elisabetta Canori Mora (1774-1825)1 que o Papa São João Paulo II – em 1994, Ano Internacional da Família – quis beatificar juntamente com Gianna Beretta Molla, definindo-as ambas como “mulheres de amor heroico”.
O casamento entre Elisabetta, de uma nobre família romana, e
o jovem e rico advogado Cristoforo Mora pareceu, a princípio, um conto de fadas
que se tornou realidade. Disse que ficou impressionado com a sua beleza, tanto
que jurou que nunca, mas nunca, procuraria outra mulher se ela se dignasse a
aceitá-lo. E estava preocupado com o pensamento de que algo o pudesse manchar:
a sua noiva não se devia cansar nem fazer qualquer trabalho que a pudesse
desgastar. Nem sequer a deixava costurar ou bordar, para que os seus dedos não
ficassem rígidos. E era também obsessivamente ciumento, tanto que impedia a
esposa de ter qualquer contacto com os seus familiares.
Mas, passados alguns
meses, o ciúme obsessivo foi seguido por uma frieza
glacial: tornou-se cada vez mais distraído e ausente;
começou a abandonar a casa, a passar as noites
noutros locais, até que a notícia de
que se tinha envolvido com uma mulher de classe baixa, que o estava
literalmente a gastar tudo o que recebia, correu a boca de todos. O jovem
advogado nunca parecia ter dinheiro suficiente, e as suas perdas no jogo
multiplicaram-se até que ficou reduzido à penúria.
Para pagar as dívidas crescentes de Christopher, Elizabete
chegou ao ponto de se privar de todas as suas joias, mas o dinheiro parecia
cair num poço sem fundo. Assim, incapazes de manter a casa de família a que
estavam habituados, os dois tiveram de se mudar para um pequeno apartamento
adjacente à casa rica dos sogros. Em total desrespeito pelo marido, Elizabete
teve de se sustentar a si e aos filhos com o trabalho das suas mãos, e estava
cada vez mais sozinha. Além disso, estava tomada por dores de estômago
indescritíveis.
Mas aqui começou a sua esplêndida aventura mística. Esta
“aventura” poderia ser interpretada de uma forma fácil, até banal: uma mulher
traída pelo marido, incapaz até de criar os filhos, gravemente doente, privada
de todo o afeto, sublima a sua angústia construindo para si um mundo espiritual,
intenso, mas fictício.
Para quem tem fé, há uma explicação mais simples e luminosa.
Sabemos que o matrimónio cristão, com todos os seus dons e graças, é um
sacramento, isto é, um meio, um sinal de uma realidade maior e mais profunda. A
realidade nela indicada é a do Amor de Jesus, Amante e Amado, que abraça juntos
os dois esposos. Mas se um dos dois falha, porquê negar que Ele pode decidir
mostrar a realidade do "casamento sagrado"?
Foi o que aconteceu a Elisabete: acolheu sacramentalmente o
seu marido, que depois a negou e a traiu. Então o verdadeiro Esposo, o Único,
decidiu retomar o lugar que lhe pertencia, e decidiu fazê-lo
"sensivelmente", isto é, com alguma manifestação extraordinária da
sua presença. Assim, a vida mística de
Isabel foi, pois, rica em orações, visões e irresistíveis transportes amorosos:
viveu os seus dias em total união com o Senhor, desde quando ia à Santa Missa
de manhã bem cedo e recebia a Comunhão todos os dias e depois, dedicava o resto
do seu tempo a cuidar das meninas, a fazer as tarefas domésticas e a rezar.
Cristoforo quase nunca aparecia, regressava já noite
cerrada, e Elizabeth estava sempre ali, acordada, à sua espera: decidira nunca
discutir e dirigir-se-lhe apenas com boas palavras e algumas exortações para
mudar de vida. No tempo livre que lhe restava, dedicava-se às tradicionais
"obras de misericórdia": com a permissão da sogra (a única que a
compreendia e apoiava), recolhia os restos de comida nas cozinhas para os
pobres, ia aos hospitais visitar os doentes, não se furtando às tarefas mais
humildes e repugnantes.
Denunciado por comportamentos imorais pelas irmãs que
queriam garantir a herança da família, Cristoforo arriscou a prisão e só
conseguiu evitá-la prometendo arrepender-se, mas voltou para junto da família
ainda mais furioso, ao ponto de tentar matar a mulher. Mais tarde, disse que,
de cada vez, sentia uma força superior a parar o seu braço.
Todos aconselharam Elizabete a sair de casa e a esconder-se
em algum lugar, mas ela não quis. E os próprios familiares não conseguiam
compreender como conseguia estar sozinha à noite com um marido que ameaçava
matá-la. Elisabete tinha questionado o seu Senhor Jesus sobre isso e recebera
como resposta "que eu não abandonasse estas três almas, isto é, as duas
filhas e o marido, enquanto Ele as quisesse salvar por meio de mim"... Até
o confessor, perante o risco que ela corria, sugeriu que ela se separasse do
marido, mas ela respondeu: "Coloquei a salvação destas três almas à frente
do meu ganho espiritual"; e tranquilizou-o dizendo que adormeceu rezando
como uma criança: "O meu espírito descansou docemente nos braços do Senhor
e um raio de luz envolveu-me e tornou este descanso seguro."
O mais incrível da história não é a referência ao raio de
luz que a protegia, mas o facto de duas almas estarem em contacto conjugal tão
próximo: uma imersa na escuridão ameaçadora do vício, a outra imersa na luz
protetora da sua amizade conjugal com Cristo. E não se trata de duas histórias
que se opõem e se anulam, mas de uma conjunção misteriosa.
Assim, a vida de Elisabete fluiu numa relativa serenidade –
entre o trabalho, a oração e os seus filhos – tudo pontilhado de momentos de
graça em que Jesus lhe ilustrou, com visões simbólicas, as mais belas verdades
da fé. E quando as suas filhas cresceram e começaram a preocupar-se com a sua
manutenção e comportamento, Jesus disse-lhe: “Não temas, pois Eu mesmo serei o
teu pai e o dono da casa. De agora em diante não terá apenas o necessário para
si e para a sua família, mas mais do que o suficiente.” Assim, por uma
extraordinária conjugação de circunstâncias, aquela casa que não tinha
conseguido tornar-se uma "igreja doméstica" devido às ausências do
marido mulherengo e perdulário, tornou-se uma "verdadeira igreja"
pela intervenção do Esposo celeste que decidira substituir pessoalmente o
cônjuge faltoso. E os milagres foram inúmeros.
Entretanto, Elisabete inscreveu-se na Ordem Terceira dos
Trinitários – uma antiga Ordem criada para a libertação dos cristãos reduzidos
à escravidão – e da sua espiritualidade retirou uma paixão crescente pelos mais
pobres e abandonados. A salvação de todos tornara-se a sua preocupação e, por
isso, pedia com uma insistência cada vez maior a salvação do marido, que
continuava a viver com a sua amante. Um dia, quando as suas filhas,
exasperadas, desejavam o castigo divino à mulher que lhes tinha tirado o pai, Elisabete
interveio "com força e energia", explicando às raparigas que deveriam
"rezar sempre ao Senhor, dizendo-Lhe que queria ter ao seu lado no paraíso
aquela mulher que atordoara o seu marido e lhe tinha causado tanto mal".
Em vez disso, dirigiu um estranho desejo ao marido e disse-lhe: "A noite
de Natal também chegará para ti", como se o único defeito do pobre homem
fosse não ter sido ainda envolvido pela ternura da Encarnação. Há mais de um
ano que ela vinha prevendo o dia exato da sua morte; De facto, Deus dera-lhe
uma amostra disso momento a momento numa visão, e ela descreveu-o assim: "Parecia
estar a morrer nos braços de Jesus e de Maria, desfrutando de um paraíso de
contentamento". Quando o dia fatídico se aproximou, disse às suas filhas:
"Estou a deixar-vos para irem ter com o vosso pai, Jesus de Nazaré",
pelo que recomendou que respeitassem sempre o seu pai e o ajudassem sempre.
Morreu na data prevista, por volta das duas da manhã, e
tinha acabado de completar cinquenta anos. Quando Cristoforo regressou a casa,
por volta das quatro da manhã, nem queria acreditar que Elizabete já não estava
viva. Ficou ali, encostado à parede, a soluçar, como se estivesse estupefacto.
A partir desse dia, nunca mais foi o mesmo. Não contou a ninguém, mas pouco
antes de Elizabete morrer, a sua amante também morreu nos seus braços. Tinha
mudado: finalmente demonstrava interesse por tudo o que até então desprezava.
Já não se preocupava com a sua elegância e com as suas roupas, passava longas
horas na igreja e virava sempre o seu velho chapéu nas mãos, chorando. Pode
dizer-se que orava com o chapéu no rosto. O facto é que, lá dentro, no fundo,
tinha colado um retrato de Elizabete e ficava a olhar para ele e a chorar.
Disse que "a tinha transformado numa santa com os seus abusos".
Nove anos se passaram desde a morte de Isabel, e uma notícia
inesperada espalhou-se por Roma: um certo Padre celebrava a sua primeira missa
na Ordem dos Frades Menores Conventuais. António, ordenado sacerdote
excepcionalmente aos sessenta e um anos de idade, depois de ter completado,
nessa venerável idade, todos os seus estudos teológicos. O nome Antonio era o
que assumira na vida religiosa, mas no mundo era conhecido como "o
advogado Cristoforo Mora": segundo a promessa de Elisabetta, também ele
tinha finalmente tido "a sua noite de Natal". E morreria também –
depois de onze anos de remorsos, orações e penitências passados num convento – com fama de santo.
Vamos agora resumir a lição que toda a história nos
transmite. A misericórdia de que a família necessita é, antes de mais, a de
compreender que no matrimónio cristão tudo é sacramento: o amor que os dois
cônjuges conseguem comunicar um ao outro é a parte bela do sacramento; o amor
que o cônjuge não quer ou não consegue dar, com as dores que daí decorrem, deve
tornar-se a parte virginal do sacramento, aquela que se refere diretamente a
Cristo e invoca diretamente a sua presença. Se apenas um dos cônjuges tomar
consciência disso, a vida será repleta de misericórdia e poderá ser repleta de
milagres.
P. Redi,
Elisabetta Canori Mora. Um amor fiel dentro das paredes da casa, Città
Nuova, Roma 1994.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2025
O quarto Rei Mago
Artabano, este era o nome do quarto Rei Mago, que morava nas montanhas da Pérsia. Era um médico, alto, moreno, de olhos bem escuros: a fisionomia de um sonhador, a mente de um sábio. Um homem de coração manso e espírito indomável.
Era um homem de posses. A sua moradia era rodeada de jardins bem tratados com árvores de frutas e flores exóticas. As suas vestes eram de seda fina e o seu manto da mais pura lã. Era seguidor de Zoroastro e numa noite se reuniu em conselho com nove membros da mesma seita. Eram todos sábios!
Artabano falou-lhes sobre a nova estrela que vira e o seu desejo de segui-la. Disse-lhes:
-- Como seguidores de Zoroastro aprendemos que os homens vão ver nos céus, em tempo apontado pelo Eterno, a luz de uma nova estrela e nesse dia, nascerá um grande profeta e Ele dará aos homens a vida eterna, incorruptível e imortal, e os mortos viverão outra vez! Ele será o Messias.
E continuou:
-- Os meus três amigos Gaspar, Melchior, Baltazar e eu, vimos a grande luz brilhante de uma nova estrela há vários dias e vamos sair juntos para Jerusalém para ver e adorar o Prometido, o Rei de Israel. Vendi a minha casa e tudo o que possuo e comprei estas joias: uma safira, um rubi e uma pérola para oferecer como tributo ao Rei. Convido-os para virem comigo nesta peregrinação para juntos adorarmos o rei!”
Artabano preparou o seu melhor cavalo, chamado Vasda, e de madrugada saiu às pressas, a fim de poder encontrar-se no dia e na hora marcados com Gaspar, Melchior e Baltazar, que já estavam a caminho, ele precisava cavalgar noite e dia. A noite começou a cair e faltavam mais ou menos três horas de viagem para chegar ao sítio de encontro, quando na estrada, perto de umas palmeiras, o seu cavalo Vasda, pressentindo alguma coisa desconhecida, parou junto a um objeto escuro perto da última palmeira. A luz das estrelas revelou a forma de um homem caído na estrada. Um pobre hebreu entre os muitos que moravam por perto. Compadecido, Artabano tratou-o por muitos dias, oferecendo-lhe pão, vinho, e ervas curativas.
O hebreu recuperou-se e erguendo as mãos aos céus disse:
-- Que o Deus de Abraão, Isaac e Jacó o abençoe. Nada tenho para lhe pagar, mas ouça-me: Os nossos profetas dizem que o Messias deve nascer, não em Jerusalém, mas em Belém de Judá.
Assim, já era muito mais de meia-noite e vários dias de atraso, quando Artabano montou de novo no seu cavalo Vasda e num galope rápido prosseguiu ao encontro dos seus amigos.
Aos primeiros raios do sol, chegou ao lugar do encontro. Mas… onde estavam os três magos? Artabano desmontou e ansioso, estudou todo o horizonte. Nem sinal da caravana de camelos dos seus amigos! Então entre uma pilha de pedras achou um pergaminho e a mensagem:
-- Não pudemos esperar mais, vamos ao encontro do Rei de Israel. Siga-nos através do deserto.
Artabano entrou no deserto e finalmente chegou em Belém, levando o seu rubi e a sua pérola para oferecer ao Rei. Mas as ruas da pequena vila. pareciam desertas. Pela porta aberta de uma casinha pobre, Artabano ouviu a voz de uma mulher cantando suavemente. Entrou e encontrou uma jovem mãe acalentando o seu bebé.
Três dias passados Ela falou-lhe sobre os três magos que estiveram na vila a que disseram terem sido guiados por uma estrela ao lugar onde José de Nazaré, sua esposa Maria, e o seu bebé Jesus estavam hospedados. Eles trouxeram prendas de ouro, incenso e mirra para o menino. Depois, desapareceram tão rapidamente quanto apareceram. E a família de Nazaré também saiu à noite, em segredo, talvez para o Egito.
O bebé que estava nos seus braços fitou o rosto de Artabano e sorriu-lhe e estendeu-lhe os seus bracinhos.
A Jovem mãe colocou o bebê no leito e preparou um almoço para o estranho hóspede que veio à sua casa. Subitamente, ouviu-se uma grande comoção nas ruas: gritos de dor, o chorar de mulheres, tocar de trombetas e o clamor:
-- Soldados! os soldados de Herodes estão a matar as nossas crianças!
A jovem mãe, branca de terror, escondeu-se no canto mais escuro da casa, cobrindo o filho com o seu manto para que ele não acordasse e chorasse.
Mas Artabano colocou-se em frente à porta da casa impedindo a entrada dos soldados. Um capitão aproximou-se para afastá-lo. A face do rei mago estava calma como se estivesse a observar as estrelas. Fitou o soldado e disse-lhe:
-- Estou sozinho aqui e à espera para dar esta joia ao prudente capitão que vai deixar-me em paz.
E mostrou o rubi brilhando na palma da sua mão como uma grande gota de sangue.
Os olhos do capitão brilharam com o desejo de possuir tal joia!
- Marchem, avancem, pois não há criança aqui!” Gritou aos seus soldados.
E Artabano voltando-se para os Céus rezou:
-- Deus da Verdade, perdoa o meu pecado! Eu disse uma coisa que não era, para salvar uma criança. E duas das minhas dádivas já se foram. Dei aos homens o que havia reservado para Deus. Poderei ainda ser digno de ver a face do Rei?
E Artabano prosseguiu na sua procura entre as pirâmides do Egito, em Heliopólis, na nova Babilónia às margens do Nilo… Numa humilde casa em Alexandria, procurou o conselho de um velho rabi que lhe falou das profecias e do sofrimento do Messias prometido e rejeitado pelos homens. E lembrou-se que o Rei que procurava não O ia encontrar num palácio ou entre os ricos e poderosos, mas entre os pobres e os humildes, os que sofrem e são oprimidos.
E Artabano passou por lugares onde a fome era grande. Fez a sua morada em cidades onde os doentes morriam na miséria. Visitou os oprimidos nas prisões subterrâneas, os escravos nos mercados de escravos…
Em toda a população de um mundo cheio de angústia ele não achou ninguém para adorar, mas muitos para ajudar! Ele alimentou os que tinham fome, cuidou dos doentes, e confortou os prisioneiros… E os anos passaram… 33 anos.
E os cabelos de Artabano já não eram pretos, eram brancos como a neve nas montanhas. Velho, cansado e pronto para morrer era ainda um peregrino à procura do Rei de Israel e agora em Jerusalém onde tinha estado muitas vezes na esperança de achar a família de Belém.
Os filhos de Israel estavam agora na cidade santa para a festa da Páscoa do Senhor e havia uma agitação e excitamento singular. Vendo um grupo de pessoas da sua terra, Artabano perguntou-lhe o que se passava e para onde o povo se dirigia.
-- Para o Gólgota! Dois ladrões vão ser crucificados e com eles, um homem chamado Jesus de Nazaré, que dizem ter feito coisas maravilhosas para o povo. Mas os sacerdotes exigiram a Sua morte, porque disse ser o Filho de Deus. Pilatos O condenou a ser crucificado porque disseram ser Ele o Rei dos Judeus - responderam-lhe.
-- Os caminhos de Deus são mais estranhos do que o pensamento dos homens, pensou Artabano. “Agora é o tempo de oferecer a minha pérola para livrar da morte o meu Rei!”
Ao seguir a multidão em direção ao portal de Damasco, um grupo de soldados apareceu arrastando uma jovem rapariga com vestes rasgadas e o rosto cheio de terror.
Ao ver o mago, a jovem reconheceu-o como da sua própria terra e libertando se dos guardas atirou-se aos pés de Artabano:
-- Tende piedade! Pelo Deus da pureza, salvai-me! Meu pai era mercador na Pérsia, mas faleceu e agora serei vendida como escrava para pagar seus dívidas! Salvai-me!
Artabano tremeu. Era o velho conflito da sua alma entre a fé, a esperança e o impulso do amor. Duas vezes as dádivas consagradas foram dadas para a humanidade. E agora? Uma coisa ele sabia:
-- Salvar essa jovem indefesa era um gesto de amor. E não é o amor a luz da alma?
Ele tirou a pérola de junto do seu coração. Nunca ela pareceu tão luminosa! Colocou-a na mão da jovem:
-- Este é o teu pagamento, o último dos tesouros que guardei para o Rei!
Enquanto ele falava uma escuridão profunda envolveu a terra que tremeu consultivamente! Casas caíram, os soldados fugiram, mas Artabano e a jovem protegeram-se debaixo do telhado sobre as muralhas do Pretório.
-- O que tenho a temer? - pensou. E para quê viver? Não tenho mais esperança de encontrar o Rei, a procura terminou, eu falhei.
Mas mesmo esse pensamento trouxe-lhe paz, pois sabia que tinha vivido cada dia da sua vida da melhor maneira que soube. Se tivesse que viver de novo a sua vida não poderia ser de outra maneira.
Mais um tremor de terra e uma telha desprendeu-se do telhado e feriu o velho mago na cabeça. Repousou no chão e deitou a cabeça nos ombros da jovem com o sangue a escorrer do ferimento.
Ao debruçar-se sobre ele, ela ouviu uma voz suave, como música vindo da distância. Os lábios de Artabano moveram-se como em resposta e ela escutou o que o velho mago disse na sua própria língua:
-- Não meu Senhor! Quando Vos vi com fome e Vos dei de comer? Ou com sede e Vos dei de beber? Ou quando Vos vi enfermo ou na prisão e fui visitar-Vos?
Por 33 anos, procurei-Vos, mas nunca vi a Vossa face, nem Vos servi, meu Rei!
E uma voz suave fez-se ouvir, mas desta vez dos Céus. A jovem também compreendeu as palavras: “Em verdade, em verdade vos digo que quando o fizeste a um destes meus irmãos a Mim o fizeste!”.
Uma alegria radiante iluminou a face calma de Artabano. Um suspiro longo e aliviado saiu dos seus lábios. A viagem para ele tinha terminado. O quarto mago compreendeu que tinha encontrado o seu Rei durante toda a sua vida!
Henry Van Dyke
domingo, 1 de dezembro de 2024
Santo André protege um bispo
Hoje, 30 de novembro, celebramos a festa de Santo André, irmão de São Pedro, no começo, discípulo de São João Batista e depois de Nosso Senhor Jesus Cristo, de quem foi o primeiro discípulo.
Santo André quase não aparece no Evangelho. Pronuncia algumas palavras na cena da multiplicação dos pães. É ele que diz: “Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas o que é isto para tanta gente?” (Jo 6,9). Em escritos apócrifos, aprendemos que, depois da dispersão dos Apóstolos, Santo André dirigiu-se ao país dos citas, povo iraniano de pastores nómades, que evangelizou, depois desceu à Grécia, onde, na Tessália, conheceu São Mateus. Finalmente teria ido ao Peloponeso e teria evangelizado a cidade de Patras. Aí converteu muitos pagãos, entre os quais se encontrava Maximila, esposa do procônsul Egeas. Este magistrado fez com que o apóstolo comparecesse perante o seu tribunal e, dizem os Actos apócrifos, Santo André falou-lhe da Paixão de Jesus Cristo, acrescentando que a cruz era um grande e formidável mistério. “A cruz”, respondeu Egeas, “não é um mistério, mas uma tortura. Farei com que também experimenteis este mistério”, e ordenou aos seus homens que prendessem André e o amarrassem à cruz pelas mãos e pelos pés, para que sofresse mais tempo. Quando André viu a cruz, em forma de X, cumprimentou-a de longe, dizendo: “Ó santa cruz, venho até Vós cheio de segurança e alegria para que que recebas o discípulo daquele que em Vós morreu. Ó venerável cruz, fazei com que volte para o meu mestre! “.
Um facto muito bonito é relatado sobre a proteção de Santo
André.
Um bispo que levava uma vida piedosa e tinha uma veneração
muito particular por Santo André, chegou ao ponto de ter o piedoso costume de
escrever no cabeçalho de todas as suas obras: “Em honra de Deus e de Santo
André.”
O demónio, que não suportava a virtude deste santo homem,
quis atacá-lo e assumiu a aparência de uma mulher de maravilhosa beleza. Ela
foi ao palácio episcopal e manifestou o desejo de se confessar. O bispo
consentiu e ela revelou-lhe ser filha de um grande rei e que tinha fugido da
casa paterna porque seu pai a queria casar com um jovem príncipe. “Dediquei-me
a Jesus Cristo”, disse-lhe ela, “e venho refugiar-me sob as suas asas, na
esperança de poder encontrar um refúgio tranquilo para poder levar uma vida
contemplativa”.
O bispo, admirado com tamanho fervor numa pessoa tão bonita
e com tanta firmeza e tanta eloquência, tranquilizou-a e convidou-a a partilhar
a sua refeição. Sentaram-se então à mesa e ela sentou-se à sua frente; os
outros convidados colocaram-se à sua direita e à sua esquerda, e o bispo tinha
os olhos fixos na senhora, não deixando de contemplar a sua beleza. Ao ao
sentir prazer nesta contemplação, o demónio, inimigo da raça humana,
infligiu-lhe uma grave ferida no coração.
De repente ouve-se um estranho a bater com força à porta e a
pedir, em voz alta, que se lhe deixassem entrar. O bispo perguntou à senhora se
concordava em receber aquele estranho. Ela respondeu: “Antes de o recebermos,
devemos fazer-lhe algumas perguntas um pouco difíceis. Propomos-lhe, pois, dois
enigmas que é inútil contar e que o estranho soube resolver perfeitamente. A
mulher disse então: “Façamos-lhe uma terceira pergunta, muito difícil,
pergunte-lhe qual é a distância entre a terra e o céu. O estranho respondeu ao
mensageiro incumbido de lhe fazer a pergunta: “Diga-lhe que responda ela mesma,
pois viajou pelo espaço que separa a terra do céu, quando foi lançada do céu
para o abismo”.
Quando o enviado relatou as palavras do estranho, a mulher
desapareceu subitamente e todos ficaram surpreendidos. O bispo quis conhecer o
estranho, mas este tinha desaparecido também e não foi encontrado.
Nessa mesma noite foi revelado ao bispo que este estranho
era Santo André que viera em socorro do seu devoto.
Nossa Senhora é seguríssimo refúgio e fidelíssimo auxílio de
todos os que estão em perigo. Não há mãe verdadeiramente católica que não sinta
receio pelo que possa suceder a seu filho. Ora, Maria Santíssima, a melhor de
todas as mães, quanta solicitude não terá para com os seus filhos que vivem
neste mundo, sujeitos a toda a sorte de riscos?
Plinio Corrêa de Oliveira
segunda-feira, 4 de novembro de 2024
A morte de um fundador
"A morte de um fundador de ordem religiosa ou congregação quase sempre ocorre entre sinais ou associações à santidade por seus filhos espirituais, que buscam nas graças dos céus concedidas a ele, o reforço da missão à qual dedicou a vida e sobre a qual se dedicarão, a partir dali, os seus membros a exemplo do fundador. Nem sempre, porém, os sinais são tão evidentes ou claros quanto o que vimos no final da última semana, diante do falecimento do fundador dos Arautos do Evangelho.
"Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, 85 anos, morreu na
sexta-feira, 1 de novembro. Fundador dos Arautos do Evangelho, a entrega de sua
alma ocorreu em meio a diversos sinais vistos por muitos, e diante dos quais
não pairam dúvidas. Em primeiro lugar, se dá um dia após o aniversário de sua
Primeira Comunhão, ocasião em que pôde receber também pela última vez o Corpo
de Cristo. Aos que acusam os Arautos de uma devoção exagerada ou veneração
precipitada ao fundador, não se pode dizer que essa coincidência foi inventada
por eles. Depois, o dia 1 de novembro, data em que o mundo inteiro celebra o
Dia de Todos os Santos, exceto no Brasil, terra do Monsenhor, que repete talvez
o ditado que “santo de casa não faz milagres”. O Brasil é conhecido por ter
seus heróis valorizados mais fora do que dentro de nossas fronteiras, ao menos
oficialmente: a Igreja, no Brasil, transfere a solenidade para o domingo
seguinte, diferente da maior parte da Igreja Católica no mundo. Ainda assim, a
Solenidade do domingo marcou a despedida e última missa exequial do Fundador
que teve como mestre espiritual Plinio Corrêa de Oliveira, também chamado fora
do Brasil pelo título de Cruzado do Século XX.
"Uma foto que vem circulando entre seus membros mostra um arco-íris
bem acima da Basílica em que foi velado o corpo do Monsenhor, na cerimônia de
três dias que se encerrou neste domingo. Esta simbologia poderia ser comparada
àquela de uma outra foto, a do famoso raio no Vaticano. O raio como símbolo do
castigo e o arco-íris, da esperança. A tibieza de parte do clero será
certamente cobrada com altos juros, ao passo que a verdadeira esperança que a
Igreja oferece é aquela de sempre: o desejo pela santidade pela radicalidade do
serviço às almas, do apostolado vivo que parece só poder renascer no mundo
quando há uma ordem forte e devota de seu fundador. O amor ao fundador é, ao contrário
do que prega a malícia do mundo, o fermento da verdadeira ação da graça na Igreja,
tendo disso tanto exemplos na história: jesuítas, franciscano, dominicanos e
tantos outros, que tiveram seus fundadores como sinais visíveis de Deus na
Terra.
"A estrutura criada pelos Arautos do Evangelho tem sido
fundamental para a manutenção da vida religiosa, por meio de uma criteriosa
educação católica de meninos e meninas, buscando a preservação da inocência e a
verdadeira formação para a santidade entre uma multidão crescente de famílias.
Neste crescimento, decerto um tanto silencioso, avança aquela contrarrevolução
sonhada por Plinio Correa, posta em ação de maneira ainda mais profunda por
Monsenhor João ao seguir radicalmente os passos de seu mestre, o seu fundador.
"O exemplo contrarrevolucionário dos Arautos deveria servir
de grande alerta e admoestação a todos os que pensam enfrentar um mundo moderno
anticristão por meio de suas próprias forças, sejam políticas, retóricas ou
intelectuais, esquecendo-se que todo sucesso vem de Deus e que ninguém vencerá
absolutamente nada sem estar radicalmente unido a Ele. E esta união, defendida
por Plinio Corrêa, só poderia ser feita através da Virgem Maria, Mãe do
Redentor, canal de graças por onde o próprio Deus quis vir ao mundo e forma
perfeitíssima de acesso a Ele neste mundo. Não por acaso, todas as obras marianas
da história da Igreja tiveram uma profusão de graças e realizações incríveis, sendo,
porém, igualmente perseguidas em alguma medida pelas forças das trevas representadas
pelos poderes deste mundo.
"Os Arautos são radicais na devoção à Eucaristia: seus
membros, religiosos, religiosas e sacerdotes, recebem o Corpo de Cristo duas
vezes por dia, o máximo que é permitido. Isso se deve a uma percepção do
fundador, de que, se o mundo amplia a cada dia as oportunidades de pecado, como
vemos, é preciso que se amplie ainda mais as oportunidades de graça, sob pena
de não perseverar. Para eles, que são tidos como exagerados e radicais por um
mundo indiferente e tíbio, uma alma que não se esforce ao máximo para obter a
santidade por meio da graça, disponível exclusivamente na Igreja Católica, não
mantém estabilidade nem mesmo na obediência aos 10 mandamentos, não podendo,
portanto, salvar-se. Esta perceção vem de Plinio Corrêa, que viu o mundo caminhar
pelos passos da Revolução, que evoluiria até o culto ao demônio em sua mais radical
literalidade. Se vemos, hoje, o mal se apresentar de maneira cada vez mais
radical, não é na radicalidade que os bons precisam se enfileirar?
"A metáfora da guerra, da batalha, sempre foi a que mais
santificou na Igreja. Esta combatividade, no entanto, recebeu um recuo
gigantesco no século XX, sendo esta a razão principal da crise atual e não
outra".
Cristian Derosa, Instituto Estudos Nacionais
Jornalista e escritor, autor do livro O Sol Negro da Rússia:
as raízes ocultistas do eurasianismo, além de outros 5 títulos sobre jornalismo
e opinião pública. Editor e fundador do site do Instituto Estudos Nacionais
Falece um exímio formador, verdadeiro guerreiro de Maria Santíssima, filho espiritual de Plinio Correa de Oliveira e pai de uma grande família de almas
Depois um longo período de sofrimento, no dia 1 de novembro de 2024, Solenidade de Todos os Santos, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, fundador dos Arautos do Evangelho, entregou a sua alma a Deus.
Não há maior amor do que sofrer e oferecer a sua vida pela
Santa Igreja, pelos seus filhos espirituais e por uma Obra que congrega quase
duzentos sacerdotes, milhares de religiosos e religiosas, bem como centenas de
milhares de leigos, de famílias que vivem intensamente a vida cristã, segundo o
carisma dos Arautos, em mais de 70 países.
O Salmista recorda que “Deus é admirável nos seus santos”
(Sl 67, 36) e é verdade que Ele continua a “fazer” coisas extraordinárias
através de homens bons e fiéis. Hoje os nossos pensamentos e as nossas orações
voltam-se de forma particular para Mons. João Clá. Todos aqueles que tiveram a
felicidade de serem formados por ele, de terem aprendido a amar a Sagrada
Eucaristia e a louvar Nossa Senhora, a consagrarem-se a Ela, segundo o método
de São Luís Maria Grignion de Montfort, graças a ele, manifestam com filial
veneração a sua eterna gratidão a um exímio formador e um verdadeiro guerreiro
da Santíssima Virgem.
Do Céu, certamente, Mons. João Clá continuará a inspirar os
Arautos do Evangelho a fim de que sejam sempre fiéis ao seu carisma, que
continuem a formar a juventude e que lutem pelo triunfo do Imaculado Coração de
Maria, como Nossa Senhora prometeu em Fátima.








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