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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A igreja Scala Coeli, escada do Céu


Numa das suas viagens a Roma, no ano de 1138, São Bernardo de Claraval parou numa igreja perto de Três Fontes (Tre Fontane) - lugar onde foi decapitado São Paulo por ordem de Nero e onde, segundo a tradição, brotaram três fontes, quando a sua cabeça bateu no chão três vezes - para celebrar uma Missa pela alma de um defunto.
Logo depois da Consagração, viu um Anjo descer ao Purgatório e levar uma alma ao Céu, acolhida por Nossa Senhora.
O Santo continuou a celebração e viu ascender outra alma, seguida de outra, e mais outra, formando uma espécie de escada de almas que subiam ao Céu.
Foi tal a impressão causada em São Bernardo, que logo depois da Missa, contou esta visão aos seus companheiros de viagem.
Deste então, esta igreja romana, construída no lugar onde foram martirizados São Zenão, um nobre romano, e os seus companheiros, durante a perseguição de Diocleciano, passou a ser conhecida por Scala Coeli, Escada do Céu.

domingo, 3 de novembro de 2019

O dinheiro, a honra e a lealdade


Um mercador voltava de uma feira, onde fizera grandes negócios. Colocara as suas belas moedas de ouro numa bolsa de pele e seguiu viagem . Ia assim por vales e montes. Ao chegar à cidade de Amiens, passou diante de uma igreja e, como de costume, entrou para rezar diante da Mãe de Deus. Pousou a bolsa a seu lado e, quando se levantou, distraído, esqueceu-se de a apanhar, partindo assim sem ela.
Existia na cidade um burguês que, ele também, tinha o costume de ir rezar aos pés da Santíssima Virgem. Ajoelhando-se no lugar que o outro acabara de deixar, encontrou a bolsa, selada e guarnecida com um pequeno fecho. Compreendeu logo que a bolsa deveria conter moedas de ouro. E pensou:
- Meu Deus, o que devo fazer? Se mando apregoar pela cidade o que encontrei, não faltará quem a reclame contra todo o direito.
Por isso, decidiu guardar a bolsa num cofre até aparecer alguém que por ela procurasse. Voltou para a casa e, com um pedaço de giz, escreveu na porta: “se alguém perdeu algo, que venha aqui”.
Nesse ínterim, o mercador deu-se conta do seu esquecimento.
- Pobre de mim! – exclamou – perdi tudo. Estou arruinado.
E voltou à igreja na esperança de recobrar o dinheiro perdido, mas a bolsa já lá não estava. Foi ter com o sacerdote, mas este afirmou não ter nenhuma informação.
Perturbado, deixou a igreja e pôs-se a vagar pela cidade. Ao passar pela casa do burguês que tinha encontrado a bolsa, viu as palavras escritas na porta e o burguês debruçado na janela.
Aproximou-se e perguntou:
- Sois vós, senhor, o dono desta casa?
- Sim, senhor, enquanto Deus o permitir. Em que vos posso servir?
- Ah, senhor, por Deus, dizei-me quem escreveu estas palavras na vossa porta.
O burguês fingiu nada saber e respondeu-lhe:
- Senhor, passa por aqui muita gente, sobretudo estudantes que gostam de escrever onde quer que lhes passe pela cabeça. Mas, perdestes algo?
- Tudo o que possuía, respondeu o mercador.
- O que, precisamente?
- Uma bolsa de couro, guarnecida de um fecho e selada, repleta de moedas de ouro, descrevendo com muitos detalhes o fecho e o selo.
O burguês compreendeu sem dificuldade que aquele homem dizia a verdade e conduzindo-o a seu quarto, devolveu-lhe a bolsa.
Ao ver a lealdade do burguês, o mercador ficou todo embaraçado:
- Meu Bom Deus – pensou – não sou digno de possuir esse tesouro. Este honesto burguês é mais digno disso do que eu. Voltando-se para ele, afirmou:
- Senhor, este dinheiro estará melhor colocado nas vossas mãos do que nas minhas. Vo-lo entrego e recomendo a minha vida a Deus.
- Ah, caro amigo, exclamou o burguês, tomai a vossa bolsa, por favor. Dela não tenho nenhum direito.
- Não, disse o mercador, não a mereço. Permita Deus que não a retome.
E fugiu, a correr. O burguês seguiu-o com o passo apressado, gritando:
- Ladrão, ladrão, prendei-o!
Os vizinhos, que o conheciam bem, saíram e detiveram o mercador, conduzindo-o diante do burguês:
-Ei-lo. Mas o que ele vos roubou, perguntaram?
- Senhores, ele quis roubar-me a honra e a lealdade, que conservei por toda a vida.
E contou toda a história aos vizinhos, que obrigaram o mercador a ficar com as suas moedas de ouro.
Fabliaux et contes du Moyen Âge, Classiques Hatier

sábado, 2 de novembro de 2019

O Sacramento da Confirmação ou Crisma


No Catecismo Romano, também conhecido como Catecismo do Concílio de Trento ou Catecismo de São Pio V, uma obra de referência, indispensável para os Párocos, catequistas e formadores, encontramos uma detalhada explicação sobre o Sacramento do Crisma, o seu significado, a sua forma, ritos e cerimónias.
«Sempre foi um imperioso dever, que os pastores se esmerassem em explicar o Sacramento da Confirmação. Hoje em dia, porém, devem expô-lo com maior empenho e cuidado, porque na Santa Igreja de Deus muitos deixam absolutamente de receber o Crisma; e, de quantos o recebem, raríssimos são os que procuram alcançar, plenamente, os devidos frutos da graça sacramental.
Urge, portanto, instruir os fiéis acerca da natureza, eficácia e sublimidade deste Sacramento. Escolha-se para esse fim não só o dia de Pentecostes, ocasião principal em que é administrado, mas também outros dias que os pastores julgarem mais oportunos.
Os fiéis chegam assim a reconhecer que não lhes será lícito menosprezar este Sacramento, mas que devem recebê-lo com respeito e piedade.
Do contrário, poderia advir o dano gravíssimo de lhes ser inútil este dom de Deus, em vista de sua culposa negligência.
Explicação etimológica
A começar pela explicação do nome, deve ensinar-se que a Igreja lhe chama "Confirmação " , porque no momento em que o Bispo unge com o santo Crisma, pronunciando a fórmula solene: " Eu marco -te com o sinal da Cruz, e confirmo -te com o Crisma da salvação, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo ": - o baptizado torna-se mais firme pela virtude da nova graça, e começa a ser um perfeito soldado de Cristo, se não puser nenhum obstáculo à eficácia do Sacramento.
O Crisma, verdadeiro Sacramento
A doutrina dos Papas
A Igreja Católica sempre reconheceu que a Confirmação tem o caráter próprio de verdadeiro Sacramento. Atestam-no o Papa Melcíades e muitos outros dos mais santos Pontífices da mais remota antiguidade.
São Clemente não podia asseverar esta verdade de maneira mais enérgica e positiva, quando declarou: "Todos devem empenhar-se por renascer em Deus, sem mais demora, para serem afinal assinalados pelo Bispo, isto é, para receberem os sete dons do Espírito Santo; em hipótese alguma, poderia ser perfeito cristão quem deixasse de receber este Sacramento, não por motivos imperiosos, mas por voluntária negligência. Esta é a tradição que recebemos de São Pedro, e assim ensinaram os outros Apóstolos, por ordem de Nosso Senhor ".
Pelo seu magistério, confirmaram esta mesma fé Urbano, Fabiano e Eusébio, pontífices romanos, que, cheios do mesmo Espírito, derramaram seu sangue por Jesus Cristo. É o que patenteiam os seus decretos.
A doutrina dos Santos Padres
 Acresce, ainda, a doutrina unânime dos Santos Padres. Entre eles, temos São Dionísio Areopagita, Bispo de Atenas. Ao explicar a maneira de se fazer o santo Crisma, exprimia-se nos termos seguintes: " Os sacerdotes revestem o baptizado de uma túnica própria, de cor branca, para o conduzirem ao pontífice; este o marca com uma unção sagrada e verdadeiramente divina, e o faz participante da sacrossanta Comunhão".
Eusébio de Cesaréia fazia, por sua vez, conceito tão elevado deste Sacramento, que não hesitou em afirmar que o herege Novato não pudera merecer o Espírito Santo, porque, recebendo o  Batismo em doença grave, não fora marcado com o sinal do Crisma.
Da mesma doutrina, temos testemunhos cabais no livro que Santo Ambrósio compôs acerca dos catecúmenos, e nos livros que Santo Agostinho lançou contra as cartas do donatista Petiliano. Ambos estavam inteiramente convencidos do caráter sacramental da Crisma, a ponto de o enunciarem e demonstrarem por meio de textos da Sagrada Escritura. O primeiro refere ao Sacramento da Confirmação aquelas palavras do Apóstolo: "Não contristeis o Espírito Santo, no qual fostes assinalado s " . O segundo, porém, aplica aquela passagem do Salmo: " Como o azeite derramado na cabeça, que desce sobre a barba , sobre a barba de Aarão"; e mais o texto do Apóstolo: " O amor de Deus está difundido em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado " .
Sacramento diverso do Baptismo
1) Pela graça específica
Não obstante Melcíades haver dito que o Batismo se une intimamente à Confirmação, não se deve crer, todavia, que ambos constituam um Sacramento, pois de um a outro vai uma grande diferença. Como é sabido, torna-os realmente distintos a variedade, não só da graça que cada um deles confere, mas também da matéria sensível que significa a própria graça.
Pela graça do Batismo, são os homens gerados para uma vida nova . Pelo Sacramento da Confirmação, os que foram gerados tornam-se varões, depois de deixarem o que tinham próprio de crianças.
Por conseguinte, quanto o nascer difere do crescer na vida natural, tanta é também a diferença entre o Batismo que nos gera espiritualmente, e a Confirmação, cuja virtude faz os cristãos crescerem até a perfeita robustez da alma.
Mais ainda. Era também necessário constituir-se outra espécie de Sacramento, para as ocasiões em que a alma entrasse numa nova ordem de dificuldades.
Se havermos mister da graça batismal para munir da fé a nossa alma, desde logo se reconhece a máxima conveniência de que o espírito dos fiéis seja confirmado por uma outra graça, para evitar que nenhum perigo ou receio de penas, de castigos , e até da própria morte, os tolha de confessar a verdadeira fé.
Pela matéria específica
Ora , sendo este o efeito próprio da unção com o específica santo Crisma, conclui-se com segurança que este Sacramento difere, essencialmente, do [próprio] Batismo.
O Papa Melcíades exprimiu aliás, em termos precisos, a diferença que existe entre ambos os Sacramentos. " Pelo Batismo, diz ele, o homem alista-se na milícia; pela Confirmação, equipa-se para a luta. Na fonte batismal, o Espírito Santo confere a plenitude da inocência; na Confirmação, dá a consumação da graça. No Batismo, renascemos para a vida ; depois do Batismo, somos confirmados para a luta. No Batismo, somos purificados; depois do Batismo, somos munidos de força . A regeneração garante de per si a salvação aos que se batizam em tempo de paz; a Confirmação arma e adestra para os embates da guerra".
Pela definição formal da Igreja
Esta é também a doutrina sustentada por vários Concílios, mormente pelo Sagrado Concílio de Trento, de sorte que a ninguém é permitido formular outra opinião, nem de longe opor-lhe a menor dúvida.
Instituição por Cristo
Já falamos, em geral, da necessidade de ensinar-se por quem foram instituídos todos os Sacramentos. Agora, é preciso fazer outro tanto acerca da Confirmação, a fim de que os fiéis se compenetrem, mais ao vivo, da santidade deste Sacramento.
Por conseguinte, os pastores terão de explicar que Cristo Nosso Senhor não só o instituiu, mas até determinou, conforme atesta o romano pontífice São Fabiano o rito da unção com o Crisma, bem como as palavras que a Igreja Católica emprega em sua administração.
Desta verdade facilmente se convencerá todo aquele que acreditar no caráter sacramental da Confirmação; pois todos os Sacros Mistérios 264 transcendem as forças da natureza humana, e só por Deus mesmo poderiam ser instituídos.
Vejamos agora quais são as suas partes. Passemos a explicar a matéria em primeiro lugar.
A matéria em si
Ela se chama "crisma", palavra tirada do em si grego, que os escritores profanos empregam para designar qualquer espécie de óleo para ungir. Por tradição geral, os escritores eclesiásticos adaptaram-lhe o sentido de só indicar o unguento composto de azeite doce e bálsamo, e que o Bispo consagra com rito solene.
Portanto, a matéria da Crisma consiste na mistura de dois ingredientes. Esta combinação de elementos diversos simboliza as muitas graças que o Espírito Santo outorga aos crismados, bem como exprime, de maneira notável, a sublimidade do próprio Sacramento.
A Santa Igreja e os Concílios sempre ensinaram que essa é a matéria do Sacramento. Atestam-no São Dionísio e muitos outros Padres de máxima autoridade, entre os quais sobressai o Papa Fabiano, declarando que os Apóstolos receberam do Senhor a maneira de fazer o Crisma, e no-la transmitiram.
O seu simbolismo: O azeite doce
Com efeito, melhor do que o Crisma, não podia nenhuma matéria exprimir as graças próprias deste Sacramento.
O azeite doce, cuja natureza gordurosa tem a propriedade de fixar-se e difundir-se, exprime a plenitude da graça que o Espírito Santo faz transbordar de Cristo, a Cabeça, sobre os outros [que são os seus membros], e a derrama " como o unguento que goteja p e la barba de Aarão até a orla de sua veste ". Na verdade, " Deus ungiu-o com o óleo da alegria , de preferência aos Seus companheiros ". E " d e Sua plenitude é que todos nós recebemos [a nossa parte] ".
O bálsamo
Com o seu odor delicado, o bálsamo não simboliza outra coisa senão a fragrância d e todas as virtudes, que os fiéis exalam de si, quando são aperfeiçoados pelo Sacramento da Confirmação, a ponto de poderem exclamar com o Apóstolo: " Somos para Deus um suave odor de Cristo".
Outra propriedade tem ainda o bálsamo. É a de preservar da corrupção todas as coisas que dele forem impregnadas. Torna-se, portanto, muito próprio para designar a eficácia deste Sacramento. O fato é que, apercebidos da graça celestial da Confirmação, os ânimos dos fiéis podem facilmente defender-se do contágio do pecado.
A sua sagração
A consagração do Crisma é feita pelo Bispo com solenes cerimónias. O Papa Fabiano, muito insigne pela santidade de vida e pela glória do martírio, deixou-nos escrito que Nosso Senhor assim o ordenou na última Ceia, quando ensinou aos Apóstolos a maneira de preparar o Crisma.
Isto não obstante, a própria razão pode demonstrar por que deve ser assim.
Em quase todos os Sacramentos, Cristo instituiu de tal sorte a matéria, que lhe deu pessoalmente uma santificação especial. Ao declarar: " Se alguém n ã o renascer da água e do Espírito [Santo], não pode entrar no reino d e Deus "; não só quis que a água fosse o elemento do Batismo, mas fez também que, pelo Seu próprio Batismo, a água tivesse dali por diante a virtude de santificar.
Esta é a razão de São João Crisóstomo afirmar: ''A água batismal não poderia eliminar os pecados dos crentes, se não fora santificada pelo contato com o Corpo do Senhor". Ora, como o Senhor não santificara, por uso e contato pessoal, a matéria da Confirmação, era mister que ela fosse consagrada por meio de santas
e religiosas fórmulas. Essa consagração não incumbe a outrem, senão ao Bispo, que foi instituído ministro ordinário do Sacramento.
 A forma
Cumpre, agora, explicar a outra parte essencial do Sacramento: a forma segundo o teor que se emprega na sagrada unção.
É preciso aconselhar aos fiéis que, ao serem crismados façam interiormente actos de amor, confiança e devoção, sobretudo quando ouvirem pronunciar as palavras sacramentais, para que [de sua parte] não se erga nenhum óbice à graça celestial.
O Seu teor
A forma completa da Crisma resume-se nas seguintes palavras: "Eu marco -te com o sinal da Cruz, e confirmo -te com o Crisma da salvação, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo" .
Se quisermos, um simples raciocínio pode mostrar-nos a justeza destas palavras, porquanto a forma sacramental deve abranger tudo o que exprime a natureza e a substância do próprio Sacramento.
O seu sentido
Ora, são três os pontos essenciais que nos cumpre realçar na Confirmação: o poder divino, que opera no Sacramento como causa primária; o vigor do coração e do espírito, que a sagrada unção comunica aos fiéis para a sua salvação; por último, o sinal com que é marcado quem vai descer à liça das hostes cristãs.
Ao primeiro ponto se referem claramente as palavras finais: "em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo ". Ao segundo, as palavras do meio: "confirmo -te com o Crisma da Salvação ". Ao terceiro, as palavras iniciais: " Eu marco -te com o sinal da Cruz".
Em rigor, não dispõe a razão de elementos bastantes, para provar que essa é a forma autêntica e perfeita do Sacramento; mas a autoridade da Igreja Católica não permite que disso tenhamos a menor dúvida, conforme o que sempre aprendemos do seu magistério oficial.
O ministro
Os pastores devem, também, ensinar a que pessoas incumbe, em primeiro lugar, a administração deste Sacramento. Já que muitos correm, como diz o Profeta, sem serem enviados, é preciso especificar quais são, na verdade, o s ministros legítimos, para que o povo fiel possa receber [validamente] a graça sacramental da Confirmação.
O bispo
Ora, doutrina é da Sagrada Escritura que só o Bispo tem o poder ordinário de administrar este Sacramento. Lemos nos Atos dos Apóstolos que, tendo Samaria acolhido a palavra de Deus, foram enviados para lá Pedro e João, que oraram por eles, a fim de receberem o Esrito Santo; pois não baixara sobre nenhum deles, porquanto só tinham sido batizados.
Desta passagem inferimos que o ministro do Batismo, por ser apenas diácono, não tinha nenhuma faculdade de crismar; que tal ofício era reservado a ministros superiores, quer dizer, aos [próprios] Apóstolos. Ainda mais. Chega-se à mesma conclusão, onde quer que a Sagrada Escritura venha a falar deste Sacramento.
Em prova do mesmo argumento, não faltam os ilustres pareceres dos Santos Padres e Soberanos Pontífices, de um Urbano, de um Eusébio, de um Dâmaso, de um Inocêncio, de um Leão, conforme averiguamos claramente em seus decretos.
Santo Agostinho, por sua vez, protesta energicamente contra o péssimo costume que havia, entre os cristãos do Egito e de Alexandria, onde os sacerdotes se atreviam a administrar o Sacramento da Confirmação.
A razão dessa exclusividade
O motivo de se reservar aos bispos o exercício de exclusividade tal ministério, podem os pastores explicá-lo por meio da seguinte analogia. Na construção de casas, os operários desempenham o papel de ajudantes inferiores. São eles que p reparam e assentam a pedra, a argamassa, a madeira, os outros materiais, e assim erguem a construção.
Mas a última demão do edifício fica na responsabilidade do mestre-de-obras.
Ora, o mesmo se dá também com este Sacramento. Como simboliza, por assim dizer, o remate de um edifício espiritual, era conveniente que por nenhum outro fosse administrado, senão por quem tivesse a plenitude do sacerdócio.
O padrinho de Crisma
Para a Confirmação, é costume tomar-se um padrinho, analogamente como se faz para o Batismo, conforme já foi explicado.
Se aqueles que se adestram como gladiadores, precisam de alguém que lhes mostre, teórica e praticamente, como prostrar o adversário com golpes certeiros, sem expor a própria vida; tanto mais carecem os fiéis de um guia e conselheiro, uma vez que pelo Sacramento da Confirmação se guarnecem, por assim dizer, de poderosas armas, para entrarem na liça espiritual, onde se põe em jogo a salvação eterna.
Assim, pois, se justifica a obrigação de admitir padrinhos também na administração deste Sacramento. Daí nasce a mesma afinidade espiritual, com impedimento de Matrimónio, como a que já foi explicada, quando se falou dos padrinhos de Batismo.
O sujeito da Crisma
Acontece, muitas vezes, que os fiéis antecipam levianamente a recepção da Crisma, ou a retardam por culposa negligência.
E nada diremos daqueles que , num requinte de impiedade, chegam até a desprezá-la e rejeitá-la.
Em vista disso, os pastores têm a obrigação de explicar quem está obrigado a crismar-se, e em que idade, e em quais condições é preciso fazê-lo.
Em primeiro lugar, começarão por ensinar que este Sacramento não é de tal necessidade, que sem ele não possa haver salvação.
Todos os cristãos
Mas, embora não seja absolutamente necessário, ninguém deve deixar de recebê-lo; devemos antes de tudo evitar qualquer negligência, numa matéria de tanta santidade, que se torna para nós uma fonte de copiosas graças divinas. Além disso, todos os cristãos devem procurar, com o maior fervor, os meios comuns que Deus lhes instituiu, para a própria santificação.
Ora, ao relatar o milagre da primeira efusão do Espírito Santo, fez São Lucas a seguinte descrição: " De repente, veio do céu um bramir como de vento que passava impetuoso, e encheu a casa inteira ". E pouco depois acrescentou: " Ficaram todos eles cheios do Espírito Santo ".
Sendo aquela casa figura e imagem da Santa Igreja , tais palavras nos levam a concluir que o Sacramento da Crisma, cuja origem datava daquele dia, fora instituído para todos os cristãos.
Isso é também fácil de comprovar pela finalidade do próprio Sacramento.
Para se tornarem perfeitos no Espírito de Cristo
Os que devem ainda crescer na vida espiritual, até se tornarem perfeitos seguidores da religião cristã, precisam para isso receber a força que advém da unção com o sagrado Crisma. Ora, nessa grande necessidade se acham todos os cristãos.
Assim como é lei da natureza que os homens cresçam desde o nascimento até chegarem à idade perfeita, embora não o consigam às vezes na devida proporção ; assim também a Santa Igreja Católica, nossa mãe comum, deseja ardentemente levar ao estado de cristãos perfeitos aqueles que ela regenerou pelo Batismo.
Este efeito, porém, é operado pelo Sacramento da unção mística. Logo, torna-se evidente que a Crisma diz respeito a todos os fiéis sem distinção.
Em que idade?
Aqui cabe um reparo. Depois do Batismo, todos podem de per si ser crismados, mas é de menos conveniência que tal aconteça, antes de alcançarem as crianças o uso da razão.
Portanto, se não parece necessário esperar até os doze anos, há contudo muita conveniência em protelar a recepção deste Sacramento até aos sete anos de idade.
Não foi a Crisma instituída como meio indispensável para a salvação, mas ela deve pela sua virtude tornar-nos fortes e corajosos nas lutas, que temos de travar pela fé de Cristo. Ora, ninguém, certamente, há-de julgar que as crianças, antes de atingirem o uso da razão, já sejam capazes de tais refregas.
A preparação
Desta doutrina se tira uma consequência prática. Os que se crismam em idade adulta, para receberem a graça e os dons deste Sacramento, devem não só apresentar-se com fé e devoção, mas também arrepender-se, cordialmente, de todos os pecados mais graves que tiverem cometido.
Confessar-se
Por conseguinte, os pastores cuidarão, outrossim, que os fiéis confessem antes os seus pecados. Exortá-los-ão, paternalmente, à prática do jejum e de outras obras de piedade.
Estar em jejum
Convém admoestá-los a que renovem o louvável se possível costume de receber a Confirmação em jejum natural, conforme se fazia na Igreja primitiva.
E não será difícil conseguir estas disposições, desde que os fiéis compreendam os dons deste Sacramento e seus admiráveis efeitos.
Efeitos: Produz uma graça nova
Os pastores explicarão que, de comum com todos os outros Sacramentos, tem a Crisma por efeito conferir uma graça nova, a não ser que haja algum óbice da parte de quem a recebe.
Como j á tivemos ocasião de provar, os sagrados e místicos sinais [dos Sacramentos] possuem a virtude não só de simbolizar, mas até de produzir a graça. Daí nasce que a Confirmação também perdoa e remite pecados, pois não se concebe que a graça possa, de algum modo, coexistir com o pecado.
Aperfeiçoa a graça do Batismo
Além destes efeitos, comuns a todos os Sacramentos, o primeiro efeito peculiar da Confirmação é aperfeiçoar a graça do Batismo.
Os que se fizeram cristãos pelo Batismo, são como crianças recém-nascidas, que por então se conservam ainda fracas e mimosas. Pelo Sacramento da Crisma é que , depois, adquirem maior resistência  contra os assaltos da carne, do mundo e do demónio. O seu espírito é confirmado numa inabalável, para que possam proclamar e engrandecer o Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Deste efeito é que, por certo, se deriva o nome do próprio Sacramento.
Corolário: A Crisma não é uma ratificação do Batismo
O termo " Confirmação " não tem por origem um costume de outrora, segundo o qual as crianças batizadas, quando atingiam a adolescência, seriam levadas à presença do Bispo, para ratificarem a fé aceita por ocasião do Batismo. Assim o imaginaram alguns [inovadores], cuja ignorância ombreava com a sua impiedade. Nesse caso, nenhuma diferença haveria entre a Confirmação e a catequese. Mas, de tal costume, ninguém pode alegar prova que seja autêntica. Pelo contrário, a origem dessa denominação está no fato de que Deus, pela virtude do Sacramento, confirma em nós o que começou a operar no Batismo, conduzindo -nos a uma sólida perfeição da vida cristã.
Faz crescer espiritualmente
E o Sacramento não só confirma, mas até aumenta em nós a graça, consoante o que doutrinava Melcíades : "O Espírito Santo desce, de modo salutar, sobre as águas do Baptismo, e confere na fonte baptismal a plenitude da inocência. Na Confirmação, porém, dá crescimento na graça".
Ele não dá um simples aumento, mas um desenvolvimento prodigioso.
A Sagrada Escritura exprime-o na belíssima comparação que faz com uma investidura. Pois Nosso Senhor disse com referência a este Sacramento: "Deixai-vos ficar na cidade, até serdes revestidos da força que vem do alto".
Corolário: O exemplo dos apóstolos
Se os pastores quiserem mostrar a divina eficácia deste Sacramento - o que sem dúvida fará grande impressão no ânimo dos fiéis - basta que lhes exponham tudo quanto sucedeu aos Apóstolos.
Antes da Paixão, e até na hora que ela ia começar, tão fracos e tímidos se mostraram, que na prisão de Nosso Senhor logo deitaram a fugir.
O próprio Pedro fora designado para ser a pedra fundamental da Igreja, e dera provas de firme constância e grande coragem; no entanto, aterrado com o que lhe dizia uma pobre mulher, negou não só uma vez, mas por duas e três vezes, que era Discípulo de Jesus Cristo. E todos, depois da Ressurreição, se fecharam no interior de uma casa, com medo dos Judeus.
Mas, no dia de Pentecostes, receberam todos o Espírito Santo, em tal plenitude, que logo se puseram, com arrojada coragem, a espalhar o Evangelho, não só no país dos Judeus, mas também pelo mundo inteiro, como lhes havia sido ordenado; sentiam até um gozo inexprimível, por serem julgados dignos de sofrer, pelo Nome de Cristo, afrontas, tormentos e crucificações.
Imprime um caráter
Outro efeito da Crisma é a impressão de um caráter sacramental. Por conseguinte, não pode jamais reiterar-se, como já foi dito a respeito do Baptismo, e como ainda se dirá, mais por extenso, na explicação do Sacramento da Ordem."
Se os pastores, com amor e zelo, insistirem nestas explicações, é infalível que os fiéis reconhecerão a grandeza e a utilidade do Sacramento, e se disporão a recebê-lo com fé e piedade.
Resta agora expor, resumidamente, os ritos e cerimónias, que a Igreja Católica usa na administração deste Sacramento. Os pastores compreenderão a oportunidade de tais explicações, se quiserem reportar-se ao que acima se disse a respeito das cerimónias.
Ritos e cerimónias:
A unção na testa
Os crismados são, pois, ungidos na testa com o sagrado Crisma. Pela virtude deste Sacramento, o Espírito Santo Se derrama na alma dos fiéis, aumenta-lhes a força e a coragem, para que possam bater-se varonilmente nas lutas espirituais, e resistir aos mais traiçoeiros dos inimigos.
Portanto, a unção na testa significa que, doravante, os crismados não devem abster-se da livre profissão do nome cristão, e que não os deve tolher nenhum medo ou vergonha, cujos sinto mas se manifestam principalmente na fronte.
Ademais, o sinal [da Cruz] distingue os cristãos dos outros homens,
assim como as insígnias distinguem os militares dos paisano s . Convinha, pois, que fosse impresso na parte mais visível do corpo.
Corolário: O dia de Crisma por excelência
Na Igreja de Deus, conservou-se o religioso costume de preferir a data de Pentecostes para a administração da Crisma, por ser precisamente o dia em que os Apóstolos foram fortalecidos e confirmados pela virtude do Espírito Santo.
A recordação desse prodígio divino faz ver aos fiéis a natureza e a sublimidade dos Mistérios, que devemos considerar no Sacramento da Confirmação.
A pancada na face
Depois da unção, o bispo dá com a mão uma leve pancada na face de quem acaba de ser confirmado, lembrando-lhe assim que dali por diante deve estar pronto, qual forte campeão, a sofrer intrépido todas as adversidades, por causa do Nome de Cristo.
O ósculo de paz
Em último lugar, dá-lhe ainda o ósculo da paz, para o crismado compreender que acaba de conseguir a plenitude das graças celestiais e aquela paz que "excede toda a noção humana".
Sejam estes pontos um ligeiro apanhado da doutrina, que os pastores deverão explanar acerca do Sacramento da Crisma, não em linguagem seca e inexpressiva, mas repassada de tanto zelo e piedade, que as instruções calem profundamente no espírito e coração dos fiéis.»
(Catecismo Romano, Serviço de Animação Eucarística Mariana, pp 241-257)

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O Parlamento Europeu pede a condenação do comunismo



No dia 19 de setembro de 2019, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre a memória histórica europeia que pede uma avaliação moral, uma investigação judicial, condenação e punição dos crimes dos regimes estalinista e comunistas totalitários, como foram os cometidos pelos nazis, nos julgamentos de Nuremberga.

“Os regimes nazi e comunista são responsáveis por massacres, pelo genocídio, por deportações, pela perda de vidas humanas e pela privação da liberdade no século XX numa escala nunca vista na História da humanidade”, afirma a resolução.

E “apela a todas as instituições e intervenientes da UE para que façam tudo o que estiver ao seu alcance para garantir que os hediondos crimes cometidos por regimes totalitários contra a humanidade e as violações graves e sistemáticas dos direitos humanos sejam recordados e julgados pelos tribunais, e para assegurar que esses crimes não se repitam; salienta a importância de manter viva a memória do passado, uma vez que não pode existir qualquer reconciliação sem memória e reitera a sua posição unida contra todos os regimes totalitários, independentemente do seu contexto ideológico”.

“Considera que a Rússia continua a ser a maior vítima do totalitarismo comunista e que a sua evolução para um Estado democrático será entravada enquanto o governo, a elite política e a propaganda política continuarem a «branquear» os crimes comunistas e a glorificar o regime totalitário soviético; exorta, por isso, a sociedade russa a confrontarse com o seu trágico passado. Está profundamente preocupado com os esforços envidados pela atual liderança russa para distorcer os factos históricos e para «branquear» os crimes cometidos pelo regime totalitário soviético, e considera que estes esforços constituem um elemento perigoso da guerra de informação brandida contra a Europa democrática com o objetivo de dividir a Europa, instando, por conseguinte, a Comissão a contrariar estes esforços de forma decisiva.;

Finalmente, “expressa preocupação com a continuação da utilização de símbolos de regimes totalitários em espaços públicos e para fins comerciais e recorda que vários países europeus proibiram a utilização de símbolos nazis e comunistas”

A resolução sugere, ainda, que o dia 25 de maio seja proclamado Dia Internacional das Heróis da Luta contra o Totalitarismo.

Resolução do Parlamento Europeu sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa (2019/2819(RSP))
O Parlamento Europeu,
– Tendo em conta os princípios universais dos direitos humanos e os princípios fundamentais da União Europeia enquanto comunidade baseada em valores comuns,
– Tendo em conta a declaração proferida em 22 de agosto de 2019 por Frans Timmermans, primeiro vice-presidente da Comissão Europeia, e pela Comissária Věra Jourová, na véspera do Dia Europeu da Memória das Vítimas de todos os regimes totalitários e autoritários,
– Tendo em conta a Declaração Universal dos Direitos do Homem das Nações Unidas adotada em 10 de dezembro de 1948,
– Tendo em conta a sua Resolução, de 12 de maio de 2005, sobre o 60.º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, em 8 de maio de 1945[1],
– Tendo em conta a Resolução 1481 da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, de 26 de janeiro de 2006, sobre a necessidade de condenação internacional dos crimes dos regimes comunistas totalitários,
– Tendo em conta a Decisão-Quadro 2008/913/JAI do Conselho, de 28 de novembro de 2008, relativa à luta contra certas formas e manifestações de racismo e xenofobia por via do direito penal[2],
– Tendo em conta Declaração de Praga, sobre a Consciência Europeia e o Comunismo, adotada em 3 de junho de 2008,
– Tendo em conta a sua declaração sobre a proclamação do dia 23 de Agosto como Dia Europeu da Memória das Vítimas do Estalinismo e do Nazismo, aprovada em 23 de setembro de 2008[3],
– Tendo em conta a sua Resolução, de 2 de abril de 2009, sobre a consciência europeia e o totalitarismo[4],
– Tendo em conta o relatório da Comissão, de 22 de dezembro de 2010, sobre a memória dos crimes cometidos pelos regimes totalitários na Europa (COM(2010)0783),
– Tendo em conta as conclusões do Conselho, de 9 e 10 de junho de 2011, sobre a memória dos crimes cometidos pelos regimes totalitários na Europa,
– Tendo em conta a Declaração de Varsóvia proferida em 23 de agosto de 2011 por ocasião do Dia Europeu da Memória das Vítimas dos Regimes Totalitários,
– Tendo em conta a declaração conjunta, de 23 de agosto de 2018, dos representantes dos governos dos Estados-Membros da União Europeia em honra das vítimas do comunismo,
– Tendo em conta a sua Resolução histórica sobre a situação na Estónia, na Letónia e na Lituânia, aprovada em 13 de janeiro de 1983, em reação ao «Apelo báltico» lançado por 45 cidadãos destes países,
– Tendo em conta as resoluções e declarações sobre os crimes cometidos pelos regimes comunistas totalitários adotadas por vários parlamentos nacionais,
– Tendo em conta o artigo 123.º, n.ºs 2 e 4, do seu Regimento,
A. Considerando que no presente ano se assinala o 80.º aniversário do deflagrar da Segunda Guerra Mundial, que provocou sofrimento humano numa escala sem precedentes e a ocupação de países europeus durante muitas décadas;

B. Considerando que há 80 anos, em 23 de agosto de 1939, a União Soviética comunista e a Alemanha nazi assinaram um pacto de não-agressão, conhecido como Pacto MolotovRibbentrop, e os seus protocolos secretos, dividindo a Europa e os territórios de Estados independentes entre os dois regimes totalitários segundo esferas de interesse, preparando assim o caminho para o início da Segunda Guerra Mundial;
C. Considerando que, em consequência direta do Pacto Molotov-Ribbentrop, seguido do tratado de fronteira e amizade entre o regime soviético e nazi de 28 de setembro de 1939, a República Polaca foi primeiro invadida por Hitler e, duas semanas mais tarde, por Estaline – o que privou o país da sua independência e foi uma tragédia sem precedentes para o povo polaco – a União Soviética comunista iniciou uma guerra de agressão contra a Finlândia em 30 de novembro de 1939 e, em junho de 1940, ocupou e anexou partes da Roménia – territórios que nunca foram devolvidos – e procedeu à anexação das repúblicas independentes da Lituânia, da Letónia e da Estónia;
D. Considerando que, após a derrota do regime nazi e do fim da Segunda Guerra Mundial, o pós-guerra foi, para alguns países europeus, sinónimo de reconstrução e de reconciliação, enquanto outros permaneceram sob o jugo de ditaduras – alguns sob a ocupação ou influência direta soviética – durante meio século, e continuaram a ser privados de liberdade, soberania, dignidade, direitos humanos e desenvolvimento socioeconómico;
E. Considerando que, apesar de os crimes do regime nazi terem sido julgados e punidos nos julgamentos de Nuremberga, continua a ser urgente reforçar a sensibilização para os crimes cometidos pelo estalinismo e por outras ditaduras, bem como efetuar uma avaliação moral deste período e uma investigação judicial desses crimes;
F. Considerando que, em alguns Estados-Membros, as ideologias comunistas e nazi são proibidas por lei;
G. Considerando que a integração europeia constituiu, desde o início, uma resposta aos sofrimentos infligidos por duas guerras mundiais e pela tirania nazi que conduziu ao Holocausto, e à expansão de regimes comunistas totalitários e não democráticos na Europa Central e Oriental, e que esta integração permitiu também superar as profundas divisões e hostilidades na Europa mercê da cooperação e da integração, pôr termo à guerra e garantir a democracia na Europa; que para os países europeus que estiveram sujeitos à ocupação soviética e às ditaduras comunistas, o alargamento da UE, com início em 2004, consubstancia a sua reintegração na família europeia à qual pertencem;
H. Considerando que cumpre manter viva a memória do trágico passado da Europa, a fim de honrar as vítimas, condenar os autores dos crimes e estabelecer as bases para uma reconciliação assente na verdade e na memória;
I. Considerando que a evocação das vítimas dos regimes totalitários, bem como o reconhecimento e a tomada de consciência do legado europeu partilhado de crimes cometidos por regimes comunistas, pelos nazis e por outras ditaduras, são de importância crucial para a unidade da Europa e dos seus povos e para a construção de uma Europa capaz de resistir às ameaças externas modernas;
J. Considerando que há 30 anos, em 23 de agosto de 1989, foi assinalado o 50.º aniversário do Pacto Molotov-Ribbentrop e as vítimas dos regimes totalitários foram lembradas durante a Cadeia Báltica, uma manifestação sem precedentes de dois milhões de lituanos, letões e estónios, que deram as mãos para formar uma cadeia humana entre Vílnius e Taline passando por Riga;
K. Considerando que, apesar de, em 24 de dezembro de 1989, o Congresso dos Deputados do Povo da URSS ter condenado a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, além de outros acordos celebrados com a Alemanha nazi, as autoridades russas negaram a responsabilidade por este acordo e pelas respetivas consequências em agosto de 2019 e estão atualmente a promover a ideia de que a Polónia, os Estados Bálticos e o Ocidente são os verdadeiros instigadores da Segunda Guerra Mundial;
L. Considerando que a evocação das vítimas dos regimes totalitários e autoritários, bem como o reconhecimento e a tomada de consciência do legado europeu partilhado de crimes cometidos pelas ditaduras estalinista, pelos nazis e por outras ditaduras, são de importância crucial para a unidade da Europa e dos seus povos e para a construção de uma Europa capaz de resistir às ameaças externas modernas;
M. Considerando que vários grupos e partidos políticos abertamente radicais, racistas e xenófobos incitam ao ódio e à violência na sociedade, por exemplo, através da disseminação em linha de discursos de incitação ao ódio, que conduz frequentemente a um aumento da violência, da xenofobia e da intolerância;
1. Relembra que, tal como consagrado no artigo 2.º do TUE, a União se funda nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos humanos, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias; relembra que estes valores são comuns a todos os Estados-Membros;
2. Salienta que a Segunda Guerra Mundial, a guerra mais devastadora da história europeia, foi o resultado imediato do infame pacto de não-agressão germano-soviético de 23 de agosto de 1939, também conhecido como Pacto Molotov-Ribbentrop, e dos seus protocolos secretos, através dos quais dois regimes totalitários que partilhavam o objetivo da conquista do mundo dividiam a Europa em duas zonas de influência;
3. Recorda que os regimes nazi e comunista são responsáveis por massacres, pelo genocídio, por deportações, pela perda de vidas humanas e pela privação da liberdade no século XX numa escala nunca vista na História da humanidade, e relembra o hediondo crime do Holocausto perpetrado pelo regime nazi; condena veementemente os atos de agressão, os crimes contra a humanidade e as violações em massa dos direitos humanos perpetrados pelos regimes nazi e comunista e por outros regimes totalitários;
4. Manifesta o seu profundo respeito por todas as vítimas destes regimes totalitários e apela a todas as instituições e intervenientes da UE para que façam tudo o que estiver ao seu alcance para garantir que os hediondos crimes cometidos por regimes totalitários contra a humanidade e as violações graves e sistemáticas dos direitos humanos sejam recordados e julgados pelos tribunais, e para assegurar que esses crimes não se repitam; salienta a importância de manter viva a memória do passado, uma vez que não pode existir qualquer reconciliação sem memória e reitera a sua posição unida contra todos os regimes totalitários, independentemente do seu contexto ideológico;
5. Exorta todos os Estados-Membros da UE a fazerem uma avaliação clara e assente em princípios sobre os crimes e atos de agressão perpetrados pelos regimes comunistas totalitários e pelo regime nazi;
6. Condena todas as manifestações e a propagação de ideologias totalitárias, tais como o nazismo e o estalinismo, na União;
7. Condena o revisionismo histórico e a glorificação dos colaboradores nazis em alguns Estados-Membros da UE; manifesta profunda preocupação com a crescente aceitação de ideologias radicais e o retorno ao fascismo, ao racismo, à xenofobia e a outras formas de intolerância na União Europeia, e considera perturbadores os relatos de conluio de líderes e partidos políticos e forças da ordem com movimentos radicais, racistas e xenófobos de vários quadrantes políticos em alguns Estados-Membros; insta os Estados-Membros a condenarem veementemente tais atos, na medida em que comprometem os valores da paz, da liberdade e da democracia preconizados pela UE;
8. Exorta todos os Estados-Membros a comemorarem em 23 de agosto o Dia Europeu da Memória das Vítimas de Regimes Totalitários, tanto a nível da UE, como a nível nacional, e a sensibilizarem as novas gerações para essas questões mediante a introdução da história e análise das consequências dos regimes totalitários nos programas e nos manuais escolares de todas as escolas europeias; insta os EstadosMembros a promoverem a documentação do passado conturbado da Europa, nomeadamente através da tradução dos processos dos julgamentos de Nuremberga para todas as línguas da UE;
9. Insta os Estados-Membros a condenarem e a combaterem todas as formas de negação do Holocausto, incluindo a banalização e a minimização dos crimes perpetrados pelos nazis e seus colaboradores, e a evitarem essa banalização no discurso político e nos meios de comunicação social;
10. Apela a uma cultura comum da memória que rejeite os crimes dos regimes fascista e estalinista e de outros regimes totalitários e autoritários do passado como forma de promover a resiliência contra as ameaças modernas à democracia, em particular entre a geração mais jovem; encoraja os Estados-Membros a promoverem, através da corrente cultural dominante, o ensino da diversidade da nossa sociedade e da nossa história comum, incluindo o ensino das atrocidades da Segunda Guerra Mundial, como o Holocausto, e a desumanização sistemática das suas vítimas ao longo de vários anos;
11. Apela, além disso, a que o dia 25 de maio (aniversário da execução do herói de Auschwitz, Witold Pilecki), seja proclamado Dia Internacional das Heróis da Luta contra o Totalitarismo, em sinal de respeito e de homenagem a todos aqueles que, ao combaterem a tirania, deram provas do seu heroísmo e da sua verdadeira estima pela humanidade, dando desse modo às gerações futuras um exemplo claro da atitude correta a assumir face à ameaça da escravidão totalitária;
12. Insta a Comissão a apoiar eficazmente os projetos de promoção da memória e da comemoração históricas nos Estados-Membros e as atividades da Plataforma da Memória e da Consciência Europeias, bem como a afetar recursos financeiros adequados no âmbito do programa «Europa para os Cidadãos», a fim de apoiar a comemoração e a recordação das vítimas do totalitarismo, como estabelecido na posição do Parlamento sobre o programa «Direitos e Valores 2021-2027»;
13. Declara que a integração europeia, enquanto modelo de paz e reconciliação, foi uma escolha livre dos povos da Europa para se comprometerem na via de um futuro partilhado e que cabe à União Europeia a especial responsabilidade de promover e salvaguardar a democracia, o respeito dos direitos humanos e o Estado de Direito, tanto dentro como fora da União Europeia;
14. Salienta que, à luz da sua adesão à UE e à NATO, os países da Europa Central e Oriental não só regressaram à família europeia de países democráticos livres, como também conseguiram obter êxito, com a assistência da UE, na realização de reformas e na promoção do desenvolvimento socioeconómico; salienta, no entanto, que esta opção deve permanecer aberta a outros países europeus, tal como estipulado no artigo 49.º do TUE;
15. Considera que a Rússia continua a ser a maior vítima do totalitarismo comunista e que a sua evolução para um Estado democrático será entravada enquanto o governo, a elite política e a propaganda política continuarem a «branquear» os crimes comunistas e a glorificar o regime totalitário soviético; exorta, por isso, a sociedade russa a confrontarse com o seu trágico passado;
16. Está profundamente preocupado com os esforços envidados pela atual liderança russa para distorcer os factos históricos e para «branquear» os crimes cometidos pelo regime totalitário soviético, e considera que estes esforços constituem um elemento perigoso da guerra de informação brandida contra a Europa democrática com o objetivo de dividir a Europa, instando, por conseguinte, a Comissão a contrariar estes esforços de forma decisiva;
17. Expressa preocupação com a continuação da utilização de símbolos de regimes totalitários em espaços públicos e para fins comerciais e recorda que vários países europeus proibiram a utilização de símbolos nazis e comunistas;
18. Observa a permanência nos espaços públicos de alguns Estados-Membros de monumentos e locais comemorativos (parques, praças, ruas, etc.) que glorificam os caminhos totalitários, o que abre caminho à distorção de factos históricos sobre as consequências da Segunda Guerra Mundial e à propagação do sistema político totalitário;
19. Condena o facto de as forças políticas extremistas e xenófobas na Europa recorrerem cada vez mais à distorção dos factos históricos e empregarem simbolismos e retóricas que lembram aspetos da propaganda totalitária, inclusivamente o racismo, o antissemitismo e o ódio contra as minorias sexuais e outras;
20. Exorta os Estados-Membros a garantirem o cumprimento das disposições da DecisãoQuadro do Conselho, a combaterem as organizações que se dedicam à propagação do discurso de incitação ao ódio e à violência em espaços públicos e em linha;
21. Salienta que o trágico passado da Europa deve continuar a servir de inspiração moral e política para enfrentar os desafios do mundo de hoje, incluindo a luta por um mundo mais justo, a criação de sociedades e comunidades abertas e tolerantes para com as minorias étnicas, religiosas ou sexuais e a promoção dos valores europeus para todos;
22. Encarrega o seu Presidente de transmitir a presente resolução ao Conselho, à Comissão, aos governos e parlamentos dos Estados-Membros, à Duma da Rússia e aos parlamentos dos países da Parceria Oriental.
[1] JO C 92 E de 20.4.2006, p. 392.
[2] JO L 328 de 6.12.2008, p. 55.
[3] JO C 8 E de 14.1.2010, p. 57.
[4] JO C 137 E de 27.5.2010, p. 25.
PROPOSTA DE RESOLUÇÃO COMUM
apresentada nos termos do artigo 132.º, n.ºs 2 e 4, do Regimento em substituição das  propostas de resolução seguintes: B90097/2019 (PPE); B9098/2019 (ECR); B90099/2019 (S&D); B90100/2019 (Renew) sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa
(2019/2819(RSP))
Michael Gahler, Andrius Kubilius, Rasa Juknevičienė, Željana Zovko, David McAllister, Antonio Tajani, Sandra Kalniete, Traian Băsescu, Radosław Sikorski, Andrzej Halicki, Andrey Kovatchev, Ewa Kopacz, Lukas Mandl, Alexander Alexandrov Yordanov, Andrea Bocskor, Inese Vaidere, Elżbieta Katarzyna Łukacijewska, Vladimír Bilčík, Ivan Štefanec, Liudas Mažylis, Loránt Vincze, Arba Kolari
em nome do Grupo PPE
Kati Piri, Isabel Santos, Sven Mikser, Marina Kaljurand
em nome do Grupo S&D
Michal Šimečka, Frédérique Ries, Ramona Strugariu, Katalin Cseh, Ondřej Kovařík, VladMarius Botoş, Izaskun Bilbao Barandica, JanChristoph Oetjen, Sheila Ritchie, Olivier Chastel, Petras Auštrevičius
em nome do Grupo Renew
Ryszard Antoni Legutko, Anna Fotyga, Tomasz Piotr Poręba, Dace Melbārde, Witold Jan Waszczykowski, Ryszard Czarnecki, Jadwiga Wiśniewska, Bogdan Rzońca, Anna Zalewska, Jacek SaryuszWolski, Grzegorz Tobiszowski, Joanna Kopcińska, Elżbieta Rafalska, Joachim Stanisław Brudziński, Beata Szydło, Beata Mazurek, Andżelika Anna Możdżanowska, Beata Kempa, Patryk Jaki, Charlie Weimers
em nome do Grupo ECR