A Igreja Católica é uma chama que reluz em qualquer atmosfera. A Igreja recebe a sua luminosidade intrínseca, não dos homens, mas do próprio Sol de Justiça que é Jesus Cristo. No entanto, é preciso não esquecer que o brilho dessa chama divina pode irradiar-se mais, ou menos, conforme a capacidade do ar em que arde.
A civilização cristã é a atmosfera serena e diáfana, que permite
a irradiação omnímoda da chama evangélica. As civilizações pagãs, pelo
contrário, saturam de vapores a atmosfera social e toldam habitualmente, com as
nuvens espessas dos preconceitos e das paixões, a plena visibilidade, a
universal irradiação do esplendor d’Aquele que foi posto como “Luz para se
revelar às nações” (Lc 2, 32).
No fim da Idade Média, essa estrutura trincou-se. Aos poucos,
agravou-se a crise, e hoje ela está em franca liquidação. Pobre e grande
civilização cristã, no caos de hoje apenas emerge um ou outro dos seus
gloriosos capitéis, as derradeiras ogivas que a sanha dos bárbaros ainda não
abateu.
Amamos estes santos e nobres destroços com o amor ardente
e as saudades abrasadoras com que os antigos judeus olhavam para as ruínas do
Templo destruído e abandonado.
Sim, amamos as ruínas, e se destas nada restasse, amaríamos
ainda sua poeira. E para nós, que estamos entre os escombros dessa grande cidadela
em ruínas, o problema não é de saber se se poupará ainda este ou aquele resto
de coluna ou de muralha. É a grande batalha que, de um momento para outro, se
começará quiçá a travar, a batalha última e decisiva há tanto tempo prenunciada
pelos De Maistre e pelos Veuillot. A grande questão é, pois, saber se, sim ou
não, a obra há de ser refeita; se os últimos destroços da Civilização Cristã
serão abatidos para dar lugar à Torre de Babel, ou se os obreiros da confusão
serão expulsos do mundo [...], se os vendilhões, os aventureiros, os apóstatas
e os demolidores de toda espécie serão escorraçados do recinto sacral do mundo
cristão, para que os filhos da luz ergam novamente a grande Cidade que é o
Reino de Deus entre os homens.
Há em gérmen uma terrível e gravíssima opção ideológica,
que nos espreita nessa tormentosa encruzilhada de caminhos políticos. Discutam
uns a quem pertencerá o mando, e outros de que maneira se organizarão as
finanças; quanto a nós, detemo-nos no marco divisor das rotas, procurando
conhecer os fantasmas confusos que nos aguardam ao longo dos caminhos... de
todos os caminhos.
Os problemas presentes contêm no seu âmago as mais radicais
consequências para o futuro, um futuro por sua vez tão grave que nele a
humanidade quase inteira pode abandonar ou reconquistar a rota da eternidade. É
esta a situação a que chegamos. Não lhe diminuamos o alcance, reduzindo-a ou
resumindo-a como se todos os interesses da Igreja se cifrassem apenas a alguns
poucos retoques no edifício social.
Plinio Corrêa de Oliveira
