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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Nosso Senhor Jesus Cristo de um crucifixo fala com São Camilo de Lellis



No dia 14 de julho, celebramos São Camilo de Lellis. Nascido em Bucchianico a 25 de maio de 1550 e falecido em Roma a 14 de julho de 1614, Camilo de Lélis é a figura histórica indissociavelmente ligada à cruz vermelha que obteve autorização do Papa Sisto V para coser no seu hábito religioso, em 1586.

Segundo o seu primeiro biógrafo, o Padre Sanzio Cicatelli, o uso da cruz no peito servia três propósitos: distinguir o grupo dos jesuítas, simbolizar a total dedicação e entrega como "escravos" ao serviço dos doentes pobres, e lembrar que se tratava de uma vocação de sacrifício, sofrimento e abnegação.

A conversão de Camilo ocorreu em 1575. Inicialmente, tentou ingressar nos Capuchinhos, mas foi rejeitado por duas vezes devido a uma ferida crónica na perna, sofrida durante o seu passado militar. Foi precisamente enquanto recuperava no hospital romano de São Tiago que teve a intuição de fundar os "Servos dos Enfermos" (hoje conhecidos como Camilianos), unindo a disciplina militar à caridade cristã. 

Os membros da congregação faziam quatro votos: obediência, pobreza, castidade e o serviço aos doentes.

Camilo é considerado o maior reformador da profissão de enfermagem e da organização da assistência hospitalar. Numa época em que os doentes eram frequentemente abandonados à própria sorte nos hospitais, Camilo introduziu a visão revolucionária de que quem cuida de um doente deve tratar tanto do corpo como do espírito. Homem prático, dotado de um profundo bom senso, de uma doçura paternal e de uma enorme capacidade de discernimento, o seu legado assentou em diretrizes simples mas profundamente humanizadoras para a saúde.

Um dos factos mais extraordinários e "maravilhosos" da vida de São Camilo de Lélis é o episódio do Crucifixo que falou com o santo e encorajou-o numa fase de grande provação.

Aconteceu no ano de 1584, quando Camilo tentava fundar a sua associação para cuidar dos doentes (os futuros Camilianos). Ele enfrentava uma oposição feroz, incompreensão e graves dificuldades financeiras. Desanimado e atormentado por dúvidas sobre se aquela obra era realmente a vontade de Deus ou apenas vaidade pessoal, Camilo retirou-se para a capela do Hospital de São Tiago, em Roma, para rezar diante de um crucifixo de madeira.

Enquanto chorava e pedia orientação, a imagem de Jesus no crucifixo ganhou vida: despregou os braços da cruz, estendeu as mãos na sua direção e disse-lhe claramente:

"Não te aflijas, cobarde! Continua a tua obra, porque esta não é uma obra tua, mas sim minha, e eu hei de ajudar-te."

Este prodígio transformou por completo o coração de Camilo. Com a certeza absoluta de que o próprio Cristo sustentava a sua missão, ganhou uma força inabalável para superar todos os obstáculos e revolucionar a assistência hospitalar.

Este mesmo crucifixo milagroso foi preservado e encontra-se hoje na Igreja de Santa Maria Madalena, em Roma, onde o corpo de São Camilo está sepultado.

Imagem da presença sacrossanta de Nossa Senhora de Fátima



Esta imagem é a imagem da presença sacrossanta de Nossa Senhora. É uma imagem que não curou ninguém, mas que falou pela expressão prodigiosamente.

O que essa expressão dizia o tempo inteiro a todos nós?

“Vossa Mãe está aqui, vossa Rainha está aqui”.

Há uma presença de Nossa Senhora nesta imagem que indica: Nossa Senhora está aqui, Ela quis vir e estar no meio de vós e quis vos fazer sentir a presença dEla por esta prodigiosa e contínua variedade de jogos fisionômicos a que a imagem deu origem durante os numerosos dias em que Ela esteve aqui.

Isto não quer dizer que a imagem quis indicar que Nossa Senhora estaria conosco durante a tempestade? 

Teria sentido Ela vir aqui antes da tempestade e sair e nos deixar sozinhos expostos à tempestade?

Não é uma promessa de permanência dela conosco durante a tempestade, e não será esta a mensagem da imagem?

“Estarei convosco. Eu quis vir visitar-vos antes da luta para vos indicar que estarei convosco na luta, que Eu vos darei forças, que Eu darei ânimo, que Eu farei acontecer - Eu também - coisas imprevisíveis”.

Plinio Corrêa de Oliveira

Você conhece a história da cidade americana chamada Ave Maria?



À primeira vista, pode parecer apenas mais uma pequena cidade dos Estados Unidos. No entanto, Ave Maria é muito mais do que isso. É um lugar que nasceu de um ideal profundamente católico: criar uma comunidade onde a fé não fosse apenas uma prática privada, mas também a inspiração da vida quotidiana, da educação, da cultura e da própria organização da cidade.

Situada no sudoeste do estado da Flórida, no condado de Collier, perto de Naples, Ave Maria começou a ser construída em 2005 e foi oficialmente inaugurada em 2007. Não surgiu por acaso, mas graças à visão de um homem que decidiu colocar a sua fortuna ao serviço da Igreja Católica.

Esse homem foi Tom Monaghan, fundador da conhecida cadeia de pizzarias Domino's Pizza. Depois de vender a sua participação na empresa,

Monaghan decidiu dedicar a sua vida e os seus recursos à evangelização e à promoção da cultura católica. O seu maior sonho era fundar uma universidade autenticamente católica, totalmente fiel ao Magistério da Igreja, onde a fé e a razão caminhassem lado a lado.

Como não encontrou no Michigan as condições necessárias para concretizar esse projeto, uniu esforços com a empresa Barron Collier Companies e iniciou uma obra verdadeiramente extraordinária: construir uma cidade inteira a partir do zero, em antigos campos de cultivo de tomate.

Assim nasceu Ave Maria, uma cidade edificada em torno da Ave Maria University, que se instalou no seu campus definitivo em 2007 e se tornou o coração intelectual, espiritual e cultural da comunidade. A universidade procura formar profissionais competentes, mas, acima de tudo, homens e mulheres profundamente enraizados na fé católica e preparados para servir a sociedade segundo os princípios do Evangelho.

No centro da cidade ergue-se o seu símbolo mais marcante: a Igreja Católica de Ave Maria. Construída em aço e pedra, com uma arquitetura inspirada na herança de Frank Lloyd Wright, domina toda a paisagem urbana. Mais do que um edifício impressionante, é um testemunho visível de que Cristo ocupa o lugar central da vida da comunidade. Tudo parece convergir para a igreja, recordando que Deus deve estar no centro da existência humana.

Embora Ave Maria tenha sido concebida com uma identidade claramente católica, trata-se de uma comunidade civil aberta a todos. Qualquer pessoa pode ali viver, adquirir uma casa ou desenvolver um negócio. Ainda assim, a presença da fé é evidente no ambiente familiar, nas celebrações litúrgicas, na vida universitária e no espírito comunitário que caracteriza a cidade.

Num tempo em que tantas sociedades parecem afastar-se das suas raízes cristãs, Ave Maria apresenta-se como um exemplo inspirador de que é possível construir uma comunidade onde os valores do Evangelho moldam a vida social, educativa e cultural. Não se trata de criar um lugar fechado sobre si mesmo, mas de demonstrar que a fé católica pode inspirar uma sociedade mais humana, mais solidária e mais orientada para Deus.

O próprio nome da cidade constitui uma profissão de fé. A saudação do Anjo à Virgem Maria — "Ave, Maria, cheia de graça" — tornou-se o nome de uma comunidade que procura recordar ao mundo que a civilização cristã floresce quando Deus e Nossa Senhora ocupam um lugar de honra no coração das pessoas.

Ave Maria é, por isso, muito mais do que uma cidade americana. É um sinal de esperança e um testemunho de que ainda hoje existem homens e mulheres dispostos a investir os seus talentos e os seus bens na construção de uma sociedade inspirada pelos valores perenes da Igreja Católica. É uma prova concreta de que a fé, quando vivida com autenticidade, não transforma apenas as pessoas: pode transformar uma cidade inteira.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

A controvérsia sobre as Missas concelebradas

 


A prática da concelebração – quando vários sacerdotes celebraram a mesma Missa em conjunto – tem uma história curiosa. Ela é simultaneamente uma das tradições mais antigas da Igreja e uma das suas introduções modernas mais visíveis.

Para entender quando começaram, é preciso dividir a história em três fases principais:

1)      Nos primeiros séculos da Igreja, do século I ao XI, a concelebração era a norma, especialmente em torno do Bispo. Como havia apenas uma comunidade e um altar em cada cidade, os presbíteros rodeavam o seu Bispo e celebravam com ele como sinal de unidade da Igreja. A celebração não era exatamente como hoje, onde todos dizem as palavras da consagração em voz alta. Muitas vezes, os padres apenas rodeavam o altar em silêncio enquanto o Bispo presidia. A partir do século XI, com o aumento do número de padres e a necessidade de cada um celebrar a sua própria intenção de Missa – o que levou à criação dos altares laterais nas igrejas – a concelebração quase desapareceu no rito romano.

2)      Durante quase mil anos, entre o século XII e 1963, a concelebração tornou-se uma raridade extrema no Ocidente. Ficou restrita a apenas duas ocasiões solenes: a Missa da Ordenação Sacerdotal, quando os novos padres concelebravam com o Bispo que os acabava de ordenar; e a Missa da Consagração de um Bispo, quando o novo bispo concelebrava com os bispos que o consagravam. Fora estes dois casos, a regra era a celebração individual.

3)      A prática, tal como a conhecemos hoje, foi oficialmente "restaurada" e expandida pelo Concílio Vaticano II. No dia 4 de dezembro de 1963, o Sacrosanctum Concilium, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, permitiu que a concelebração fosse alargada a mais situações, como a Missa Crismal, quintas-feiras santas e reuniões de sacerdotes. No dia 7 de março de 1965, a Santa Sé publicou o Decreto Ritus Servandus, contendo as normas para a concelebração. Foi a partir deste momento que se tornou comum ver vários padres num altar, em qualquer paróquia, durante festividades ou congressos.

O objetivo dos Padres Conciliares foi sublinhar dois pontos teológicos:

  1. A Unidade do Sacerdócio: Mostrar que todos os padres participam no mesmo e único sacerdócio de Cristo.
  2. A Unidade do Sacrifício: Demonstrar que, embora haja muitos celebrantes, o sacrifício da Eucaristia é um só.

A concelebração continua a ser uma questão controversa, com alguns membros de institutos mais conservadores aprovados pela Igreja a recusarem-se a concelebrar nas Missas Crismais diocesanas anuais. A maioria do clero interpreta isto como uma rejeição da comunhão com o bispo local, podendo dar a impressão que se contesta a legitimidade das mudanças litúrgicas pós-Vaticano II.

Multiplicação dos frutos da Missa

A oposição à concelebração, especialmente no modo como é praticada no Rito Moderno, não é apenas uma questão de "gosto", mas baseia-se em argumentos teológicos e históricos profundos sobre a natureza do sacerdócio e da Missa.

O argumento teológico mais forte é o da multiplicação dos frutos da Missa.

Cada Missa tem um valor infinito em si mesma, mas a sua aplicação ("fruto") é finita. Se dez padres celebram dez Missas separadas, há dez atos de sacrifício oferecidos a Deus, dez vezes mais graça e sufrágio para as almas.

Se esses mesmos dez padres concelebrarem apenas uma Missa, há apenas um ato de sacrifício. Logo, "perdem-se" nove Missas que poderiam ter sido oferecidas pela salvação das almas ou por outras intenções específicas.

Na teologia católica, o padre atua in persona Christi, na pessoa de Cristo.

Ora a concelebração "dilui" esta realidade. Numa celebração individual, a identificação do padre com o Único Sumo Sacerdote, Cristo, é clara na concelebração, onde vários padres recitam as palavras da consagração em uníssono, os críticos veem uma espécie de "coletivização" do sacerdócio que se assemelha mais a uma assembleia do que ao sacrifício solitário de Cristo no Calvário.

Antes do Vaticano II, a liturgia solene utilizava a estrutura do Celebrante, Diácono e Subdiácono. Muitas vezes, quando não havia diáconos disponíveis, outros padres vestiam as dalmáticas e serviam nestes papéis subalternos. Alguns sacerdotes mais conservadores preferem esta hierarquia clara, onde cada clérigo tem uma função distinta. Na concelebração, todos fazem "o mesmo", o que, para os críticos, retira a beleza da ordem e da harmonia das funções litúrgicas.

Alguns sacerdotes contestam também a ideia de que a concelebração moderna é um simples "regresso às origens". Eles argumentam que a concelebração na Antiguidade era cerimonial, ou seja, estar presente e consentir com o Bispo, e não sacramental, onde todos consagrarem a hóstia ao mesmo tempo. Ainda há sacerdotes que acusam o movimento litúrgico de "arqueologismo" — tentar ressuscitar práticas antigas de forma artificial, ignorando o desenvolvimento orgânico da Igreja ao longo dos séculos, que levou à celebração individual por boas razões teológicas.

Para os padres mais conservadores, como a Missa é a representação incruenta do sacrifício do Calvário e que Nosso Senhor Jesus Cristo estava só, a celebração individual, ou com apenas um celebrante principal assistido por ministros, refletiria melhor a solidão de Cristo no seu sacrifício. A imagem de um "grupo" de padres no altar pode parecer, para alguns, uma "ceia comunitária" em vez de um sacrifício no altar.

Portanto, a concelebração para os padres mais conservadores é vista como uma prática que privilegia o aspeto comunitário e social da Igreja em detrimento do aspeto sacrificial e da eficácia sobrenatural de cada Missa individual.

Foto: Arquidiocese de Braga

sábado, 14 de março de 2026

Domingos Sávio, o santo de coração puro, primeiro aluno do Oratório de Dom Bosco a ser canonizado


“É mais fácil encontrar ouro do que um coração puro como o de Domingos Sávio”, afirmava
São João Bosco


Domingos Sávio foi o primeiro aluno do Oratório de São João Bosco a ser canonizado, tornando-se modelo de santidade acessível para todos os jovens.

Domingos nasceu a 2 de abril de 1842, em San Giovanni di Riva, na Itália. Desde pequeno destacou-se pela sua maturidade espiritual, pela alegria e pela dedicação à oração e aos sacramentos. Ainda em criança traçou um plano de vida que incluía a comunhão frequente e a decisão firme de “antes morrer do que pecar”.

Aos 12 anos, pediu a Dom Bosco para entrar no Oratório de Turim, com o desejo de se tornar sacerdote. No oratório foi sempre exemplo de serenidade, estudo, serviço e amizade. Ensinava o catecismo, cuidava dos doentes e era presença pacificadora no meio de conflitos. O seu lema era claro: “Antes morrer do que pecar”.

Em 1856, fundou a “Companhia da Imaculada”, grupo apostólico juvenil que incentivava a ação evangelizadora entre os colegas do oratório.

Faleceu no dia 9 de março de 1857, com apenas 14 anos. Foi canonizado pelo Papa Pio XII no dia 12 de junho de 1954, tornando-se até aquela data (agora são os Pastorinhos de Fátima) o santo, não mártir, mais novo da Igreja Católica.

Sem a noção clara do que é o pecado, a santidade torna-se uma meta incompreensível


O pecado é uma palavra que hoje parece ter desaparecido. “Na consciência comum – e às vezes também na vida da Igreja – tudo é explicado como fragilidade, ferida, limite, condicionamento. Quando ainda se fala de pecado, muitas vezes ele é reduzido a um pequeno erro ou a uma fraqueza”. Se nos limitarmos a isso, desaparece também “a grandeza da liberdade humana e da sua responsabilidade”.

 

Se não existe mais a possibilidade de um mal verdadeiro, não podemos acreditar nem mesmo na possibilidade de um bem verdadeiro. Se o pecado desaparece, também a santidade se torna um destino abstrato e incompreensível.

 

No pecado, o homem reconhece que “a sua liberdade é real e que com ela pode construir e destruir: a si mesmo, aos outros, ao mundo”. É necessária, portanto, “uma cura profunda”, por isso a conversão é “um itinerário exigente” para recuperar a relação com Deus, uma repetição nos gestos da escolha de viver no amor e na liberdade, mesmo com esforço, que não é em si “estéril”, mas expressão da “fidelidade de quem já vislumbrou o sentido e o valor do que vive”.

 

Padre Roberto Pasolini, Pregador da Casa Pontifícia, primeira meditação da Quaresma, 6/3/2026  - Foto Vatican Media

O amor à Igreja faz crescer a determinação para praticar o bem e para recusar o mal


O amor a Deus é a fonte de todas as virtudes. Quem ama se salva, porque depois praticará os Mandamentos e cultivará as melhores qualidades morais. Quem não ama, se perde, porque cortou com a raiz de todos os valores da piedade.

 

Quantas e quantas vezes tenho ouvido lamentações de pessoas que apresentam dificuldades em tocar a vida espiritual, em perseverar na prática dos Mandamentos, ou pelo menos problemas para progredir na virtude.

 

Qual é a solução?

 

Uma das muitas soluções – porque a Igreja é a cidade da salvação onde para tudo há diversas saídas – é exatamente aumentar a nossa Fé, é aumentar o nosso amor à Igreja Católica. Aumentando esse amor, cresce igualmente a nossa determinação para praticar o bem e a nossa repulsa ao mal. E, cumpre notar que, muitas vezes, as pessoas não têm suficiente aversão ao mal, porque no fundo não têm suficiente amor à Igreja.

 

A Igreja é a figura de Nossa Senhora, e é resplandecente e bela na terra, e devemos procurar amá-la a fim de nos prepararmos para amar Nossa Senhora no Céu. É necessário que tenhamos os olhos sempre voltados para a Igreja eterna, a Igreja imutável, que não se identifica com as misérias presentes e transitórias, a Igreja que devemos amar acima de todas as coisas no mundo. A Igreja na sua hierarquia, nos seus mil aspetos verdadeiramente divinos.

 

Recordemos, por exemplo, tudo quanto há de belo na infalibilidade papal, na figura de um homem infalível, governando a todos e a todos ensinando o caminho da verdade, num governo que não é temporal, mas do espírito. Nunca se concebeu, em matéria de governo, algo de tão bonito, de tão nobre quanto isso.

 

Consideremos, de outro lado, a Eucaristia. Deus verdadeira e realmente presente entre nós, embora oculto de modo misterioso sob as espécies eucarísticas, conferindo ao homem a possibilidade de ter com Deus um convívio tão íntimo e até insondável. Deus entra nesse homem e como que Se faz um com ele. Pode-se imaginar coisa mais esplêndida do que o Todo-Poderoso condescender em ter tal familiaridade com cada um dos homens que Ele criou?

 

Depois, o sacramento da Penitência. Pode-se conceber que inferno seria o mundo sem o confessionário? Se nós não pudéssemos nos abrir sobre os nossos pecados, e não tivéssemos a certeza do perdão? Que horror seria a incerteza sobre se Deus nos perdoou ou não, se estamos ou não em estado de graça, etc., etc.

 

Que obra-prima de sabedoria existe no confessionário, e no facto do segredo da confissão nunca ser traído!

 

E quanto mais o mundo afunda numa decadência moral, mais aparece os raios de luz que partem da Igreja, mais compreendemos o quanto ela é bela e digna de amor.

 

Quando nós pensarmos em tudo isso, encontraremos mais resolução para combater os nossos pecados e para praticar a virtude.

 

Que Nossa Senhora das Mercês nos ajude a isso. “mercê” é uma graça, é um favor. Nossa Senhora das Mercês é Nossa Senhora dos favores, disposta a todo momento a conceder-nos dons excelentes e a convidar-nos a pedi-los.

 

Tenhamos para com Ela esse tipo de relação muito filial e muito confiante, certos de que sobre nós descerão as misericórdias da nossa Mãe santíssima.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

A Civilização Cristã e a irradiação do esplendor de Deus na Terra

A Igreja Católica é uma chama que reluz em qualquer atmosfera. A Igreja recebe a sua luminosidade intrínseca, não dos homens, mas do próprio Sol de Justiça que é Jesus Cristo. No entanto, é preciso não esquecer que o brilho dessa chama divina pode irradiar-se mais, ou menos, conforme a capacidade do ar em que arde.

 

A civilização cristã é a atmosfera serena e diáfana, que permite a irradiação omnímoda da chama evangélica. As civilizações pagãs, pelo contrário, saturam de vapores a atmosfera social e toldam habitualmente, com as nuvens espessas dos preconceitos e das paixões, a plena visibilidade, a universal irradiação do esplendor d’Aquele que foi posto como “Luz para se revelar às nações” (Lc 2, 32).

 

No fim da Idade Média, essa estrutura trincou-se. Aos poucos, agravou-se a crise, e hoje ela está em franca liquidação. Pobre e grande civilização cristã, no caos de hoje apenas emerge um ou outro dos seus gloriosos capitéis, as derradeiras ogivas que a sanha dos bárbaros ainda não abateu.

 

Amamos estes santos e nobres destroços com o amor ardente e as saudades abrasadoras com que os antigos judeus olhavam para as ruínas do Templo destruído e abandonado.

 

Sim, amamos as ruínas, e se destas nada restasse, amaríamos ainda sua poeira. E para nós, que estamos entre os escombros dessa grande cidadela em ruínas, o problema não é de saber se se poupará ainda este ou aquele resto de coluna ou de muralha. É a grande batalha que, de um momento para outro, se começará quiçá a travar, a batalha última e decisiva há tanto tempo prenunciada pelos De Maistre e pelos Veuillot. A grande questão é, pois, saber se, sim ou não, a obra há de ser refeita; se os últimos destroços da Civilização Cristã serão abatidos para dar lugar à Torre de Babel, ou se os obreiros da confusão serão expulsos do mundo [...], se os vendilhões, os aventureiros, os apóstatas e os demolidores de toda espécie serão escorraçados do recinto sacral do mundo cristão, para que os filhos da luz ergam novamente a grande Cidade que é o Reino de Deus entre os homens.

 

Há em gérmen uma terrível e gravíssima opção ideológica, que nos espreita nessa tormentosa encruzilhada de caminhos políticos. Discutam uns a quem pertencerá o mando, e outros de que maneira se organizarão as finanças; quanto a nós, detemo-nos no marco divisor das rotas, procurando conhecer os fantasmas confusos que nos aguardam ao longo dos caminhos... de todos os caminhos.

 

Os problemas presentes contêm no seu âmago as mais radicais consequências para o futuro, um futuro por sua vez tão grave que nele a humanidade quase inteira pode abandonar ou reconquistar a rota da eternidade. É esta a situação a que chegamos. Não lhe diminuamos o alcance, reduzindo-a ou resumindo-a como se todos os interesses da Igreja se cifrassem apenas a alguns poucos retoques no edifício social.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Rito penitencial e de reparação quando uma igreja é profanada



Quando uma igreja é profanada, qual é o rito penitencial e de reparação?

No Cerimonial dos Bispos, n.º 1070 a 1092, encontramos a resposta:

PRECES PÚBLICAS A FAZER QUANDO UMA IGREJA TIVER SIDO PROFANADA 

Os delitos cometidos numa igreja atingem e prejudicam em certa medida toda a comunidade dos irmãos que crêem em Cristo, dos quais o edifício sagrado é sinal e imagem. Devem considerar-se tais, não só os crimes e delitos que constituem ofensa grave aos sagrados mistérios, mormente às espécies eucarísticas, e se cometem em desprezo da Igreja, mas também os que ofendem gravemente a dignidade do homem e da sociedade humana. A Igreja é violada com ações gravemente injuriosas, nela praticadas com escândalo dos fiéis, e, de tal modo graves e contrárias à santidade do lugar, que, a juízo do Ordinário do lugar, não é lícito exercer nela o culto, enquanto a injúria não for reparada por meio de rito penitencial".

A injúria feita à igreja deve ser reparada quanto antes mediante rito penitencial. Enquanto não se efetuar este rito, não se pode celebrar nela a Eucaristia nem quaisquer outros sacramentos ou ritos litúrgicos. Entretanto, através da pregação da Palavra de Deus e exercícios de piedade, convém preparar os fiéis para o rito penitencial, e, mais do que isso, renová-los interiormente por meio da celebração do sacramento da Penitência. Em sinal de penitência, o altar deve estar despido, removendo dele todos os sinais que habitualmente exprimem júbilo e alegria: luzes acesas, flores e outras coisas do gênero. 

Convém que o rito penitencial seja presidido pelo Bispo da diocese, para mostrar que não é só a comunidade local, mas toda a Igreja da diocese, que se associa ao rito e está disposta à conversão e á penitência. Conforme os casos, o Bispo, juntamente com o reitor da igreja da comunidade local, determinará se deve haver celebração do Sacrifício eucarístico ou celebração da Palavra de Deus. 

O rito penitencial pode celebrar-se num dia qualquer, exceto no Tríduo pascal e nos domingos e solenidades. Nada obsta, porém, e até pode convir, para não prejudicar espiritualmente os fiéis, que o rito penitencial seja celebrado na véspera de domingo ou solenidades. 

Para a celebração do rito penitencial, preparar-se-á: 

 a) Ritual Romano, Lecionário; 

 b) bacia da água benta com o aspersório; 

 c) turíbulo com a naveta do incenso e colher; 

 d) cruz processional e tochas para os ministros; 

 e) toalhas, velas e as demais peças necessárias para ornamentação do altar; 

 f) tudo o que se requer para a celebração da Missa, no caso de se celebrar. 

No rito penitencial, usam-se paramentos roxos ou de cor penitencial, segundo os costumes locais, salvo se for celebrada Missa que exija paramentos doutra cor. 

Preparar-se-á: 

− para o Bispo: alva, cruz peitoral, estola, pluvial ou casula, mitra, báculo pastoral; 

 − para os concelebrantes: paramentos para a Missa; 

 − para os diáconos: alvas, estolas e, eventualmente, dalmáticas; 

 − para os restantes ministros: alvas ou outras vestes devidamente aprovadas.

O rito de reparação por uma igreja profanada, tal como descrito no Cerimonial dos Bispos, representa uma das formas mais solenes de súplica pública na liturgia católica. Quando numa igreja ocorrem atos "gravemente injuriosos" — como ofensas aos sagrados mistérios, gestos blasfemos ou atos contra a dignidade humana — o local perde a sua adequação ao culto até ser conciliado com um rito penitencial.

O Cerimonial estabelece que o Bispo diocesano preside à celebração, para exprimir a participação de toda a Igreja local na dor e na reparação. O rito, geralmente ligado à Celebração Eucarística, inicia-se com uma procissão penitencial da igreja mais próxima ou de um local adequado até à igreja profanada. Uma vez no interior, o Bispo asperge o Altar e as paredes com água benta, símbolo de purificação. Segue-se a Liturgia da Palavra, com leituras que evocam a conversão e o perdão, e a Santa Missa, em que o altar é rededicado à presença real do Senhor.

O rito oferece uma variedade de oportunidades pastorais: a possibilidade de envolver toda a comunidade diocesana, de unir a reparação litúrgica à conversão pessoal dos fiéis através da pregação e da confissão, e de reconstruir a comunhão eclesial ferida pelo pecado. Deste modo, o rito não é meramente um acto jurídico ou formal, mas torna-se um gesto eclesial de purificação, penitência e renascimento, no qual a comunidade reconhece a sua fragilidade e renova a sua fé no mistério de Cristo que «renova todas as coisas».

Santa Teresa de Ávila e a Contra-Reforma


 

Celebramos, no dia 15 de outubro, Santa Teresa de Jesus, Religiosa, doutora da Igreja e Fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças.


No primeiro capítulo de sua obra "O caminho de perfeição", Teresa explica os motivos que a levaram a estabelecer uma observância tão rigorosa no mosteiro carmelita de São José de Ávila:

“Tendo conhecimento dos desastres em França, da devastação que aí faziam os heréticos, e como essa infeliz seita [protestantes] aí se fortificava dia a dia, fui por isso tão vivamente tocada que, como se eu pudesse alguma coisa, ou se eu fosse alguma coisa, chorava em presença de Deus e implorava que remediasse tão grande mal. Parecia-me que eu teria dado mil vidas para salvar um só do grande número de almas que se perdiam nesse reino. Mas vendo que era somente uma mulher e ainda tão má e totalmente incapaz de prestar a Deus o serviço que eu desejava, acreditei, como acredito ainda que, pois como há tantos inimigos e tão pouco amigos, eu devia trabalhar o quanto pudesse para fazer com que esses últimos fossem bons.

“Assim, tomei a resolução de fazer o que dependia de mim para praticar os conselhos evangélicos com maior perfeição que pudesse, e procurar levar esse pequeno número de religiosas que estão aqui, a fazer a mesma coisa. Nesse sentido, confiei-me à bondade de Deus, que não deixa jamais de assistir àqueles que a tudo renunciam por seu amor.

“Esperei que essas boas jovens, sendo como o meu desejo as figurava, os meus defeitos seriam cobertos pelas suas virtudes e poderíamos contentar a Deus em alguma coisa, ocupando-nos todas em rezar pelos pregadores, pelos defensores da Igreja e pelos homens sábios que sustentam discussões. Pois assim faríamos o que estava ao nosso alcance para socorrer p nosso Mestre, que esses traidores, que Lhe devem tantos benefícios, tratam com tanta indignidade, que parecem querer crucificá-Lo ainda e não deixar lugar algum onde Ele pudesse repousar a cabeça”.

A reflexão de Santa Teresa é lindíssima. Era uma simples religiosa de um convento carmelita, não propriamente corrupto, mas relaxado e ela mesmo tendo passado muito tempo na tibieza e na mediocridade no amor de Deus. Ouviu falar nas devastações que o protestantismo estava fazendo na França, naquele tempo, muito grandes. Os protestantes tinham conquistado completamente um pequeno Reino que havia no Sul, que era o Reino de Navarra, cuja rainha Jeanne, e mais tarde o filho dela, o rei Henrique, futuro Henrique IV da França, eram protestantes militantes.

Por outro lado, um terço da França tinha-se tornado protestante, cometendo os seus adeptos toda a espécie de blasfémias, opressões às igrejas, depredações pavorosas, em suma, um verdadeiro incêndio religioso na França.

A notícia desse facto chega à Espanha e ao conhecimento dessa freira então um tanto medíocre. E aí a graça de Deus toca a sua alma e compreende o imenso desastre que isso representava. E em vez de ficar com ideias nacionalistas idiotas, pensando: Aquilo é a França, eu estou na Espanha e não tenho nada que ver com o que se passa lá, compreendendo a universalidade da religião Católica, a universalidade da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, entendeu também que isso era um verdadeiro desastre para o mundo católico inteiro. Então pôs-se a chorar copiosamente e daí veio a ideia de sua conversão.

Como isto se deu? Ela o expõe apenas muito de passagem aqui, mas em outros trechos isso fica mais claro.

Seu raciocínio foi: Eu sou uma simples religiosa e não posso, eu, como mulher, fazer nada. A não ser o seguinte: os amigos de Deus são poucos e tíbios. Os inimigos de Deus são muitos e ardorosos. Eu devo, portanto, rezar, imolar-me, renunciar a tudo para que os amigos de Deus se tornem mais fortes e sejam capazes de fazer face aos inimigos de Deus. Então, afervorar os católicos, catolicizar os católicos era o meio de levar o inimigo à derrota.

Então, para consegui-lo, era preciso tomar algumas freiras que estavam ao seu alcance e fazer com que elas freiras se imolassem, rezassem; ela mesma também passar da mediocridade para o fervor, para conseguir que os pregadores, os doutores, os que lutavam pelas armas católicas se tornassem capazes de derrotar os protestantes. Então, dessa ideia veio a reforma do Carmelo. E naturalmente graças incontáveis que se derramaram sobre a França em consequência das orações das carmelitas.

Os senhores estão vendo por aí que se trata de uma ideia altamente teológica e altamente sapiencial que inspirou tal movimento. A ideia da Comunhão dos santos, do valor preponderante da oração e do sacrifício para a Igreja vencer as suas grandes batalhas; a ideia de catolicizar os católicos como meio de deter o furor e vencer os que não são católicos. E, por fim, a ideia de uma reforma de uma Ordem religiosa especialmente para isso. É uma concatenação de ideias esplêndidas que se ligam umas às outras e que têm como desfecho a reforma da Ordem do Carmo.

É isso que explica aos senhores esse fato curioso: Santa Teresa de Jesus, apenas o que fez foi reformar a Ordem do Carmo. O Carmelo é uma Ordem de reclusas e estabelecer a reforma dos Carmelitas descalços, que não são reclusos. A obra em si, humanamente falando, não é tão extraordinária. O que representa triplicar o número de conventos de religiosas trancadas no seu convento? Multiplicar o número de padres, vamos dizer, de padres fervorosos, só isso a mais?

Entretanto, não há História da Igreja um pouco cuidadosa, que não mencione entre os principais fatos da Contrarreforma, a reforma teresiana do Carmelo. Porquê? Porque ela teve um efeito extraordinário em toda a Cristandade.

O fervor aumentou em toda a Igreja; em torno das carmelitas desencadeou-se um movimento de afervoramento, movimento este que foi dos maiores, mais vigorosos da Contrarreforma. Os Padres carmelitas também atuaram da mesma maneira. Quer dizer, uma ação que era maior do que os meios humanos, empreendeu uma expansão de um espírito, de uma mentalidade, de uma atitude de alma, que tinha como consequência um afervoramento geral dos católicos, e fazendo, portanto, da obra de Santa Teresa uma das grandes realizações da Contrarreforma.

O curioso é que isso se explica muito mais pelo lado sobrenatural do que pelo natural. E nos mostra, por outro lado, quanta razão temos ao dar prioridade à vida interior sobre a vida ativa; em catolicizar os católicos, sobre a preocupação de conquistar não católicos para a Igreja; a ideia de que a oração e o sofrimento valem mais, na luta contra os adversários, do que a ação; o desejo, entretanto, ardente, da ação e da ação levada até suas últimas audácias, que caracterizavam o espírito de Santa Teresa de Jesus. Tudo faz com que percebamos, em sua grande autoridade, quantas conceções nossas são verdadeiras e quanto, portanto, nós a ela devemos ser fiéis.

É preciso dizer que esse extravasamento do zelo de Santa Teresa de Jesus para a França produziu a implantação da reforma do Carmelo também lá, feita por uma das suas discípulas. Daí decorreu, no “doux pays de France”, um florescimento carmelitano, o qual por sua vez produziu como flor mais recente e estupenda, flor igual às maiores flores – e exatamente disse a “mais recente” evitando a palavra “última”, porque foi o ponto de partida de novos florescimentos – Santa Teresinha do Menino Jesus.

Devemos ver, portanto, em Santa Teresinha do Menino Jesus mais uma expansão desse zelo pela França de Santa Teresa, a Grande, que produziu depois o nascer, na França e depois fora dela, de toda a imensa família das pequenas almas estimuladas, suscitadas e – eu diria – espiritualmente dirigidas por Santa Teresinha do Menino Jesus.

Plinio Corrêa de Oliveira