A prática da concelebração – quando vários sacerdotes celebraram a mesma Missa em conjunto – tem uma história curiosa. Ela é simultaneamente uma das tradições mais antigas da Igreja e uma das suas introduções modernas mais visíveis.
Para entender quando começaram, é
preciso dividir a história em três fases principais:
1)
Nos primeiros séculos da Igreja, do século I ao
XI, a concelebração era a norma, especialmente em torno do Bispo. Como havia
apenas uma comunidade e um altar em cada cidade, os presbíteros rodeavam o seu
Bispo e celebravam com ele como sinal de unidade da Igreja. A celebração não
era exatamente como hoje, onde todos dizem as palavras da consagração em voz
alta. Muitas vezes, os padres apenas rodeavam o altar em silêncio enquanto o
Bispo presidia. A partir do século XI, com o aumento do número de padres e a
necessidade de cada um celebrar a sua própria intenção de Missa – o que levou à
criação dos altares laterais nas igrejas – a concelebração quase desapareceu no
rito romano.
2)
Durante quase mil anos, entre o século XII e
1963, a concelebração tornou-se uma raridade extrema no Ocidente. Ficou
restrita a apenas duas ocasiões solenes: a Missa da Ordenação Sacerdotal,
quando os novos padres concelebravam com o Bispo que os acabava de ordenar; e a
Missa da Consagração de um Bispo, quando o novo bispo concelebrava com os
bispos que o consagravam. Fora estes dois casos, a regra era a celebração
individual.
3)
A prática, tal como a conhecemos hoje, foi
oficialmente "restaurada" e expandida pelo Concílio Vaticano II. No
dia 4 de dezembro de 1963, o Sacrosanctum Concilium, a Constituição sobre a Sagrada
Liturgia, permitiu que a concelebração fosse alargada a mais situações, como a
Missa Crismal, quintas-feiras santas e reuniões de sacerdotes. No dia 7 de
março de 1965, a Santa Sé publicou o Decreto Ritus Servandus, contendo as
normas para a concelebração. Foi a partir deste momento que se tornou comum ver
vários padres num altar, em qualquer paróquia, durante festividades ou
congressos.
O objetivo dos Padres Conciliares
foi sublinhar dois pontos teológicos:
- A
Unidade do Sacerdócio: Mostrar que todos os padres participam no mesmo e
único sacerdócio de Cristo.
- A
Unidade do Sacrifício: Demonstrar que, embora haja muitos celebrantes, o
sacrifício da Eucaristia é um só.
A concelebração continua a ser
uma questão controversa, com alguns membros de institutos mais conservadores
aprovados pela Igreja a recusarem-se a concelebrar nas Missas Crismais
diocesanas anuais. A maioria do clero interpreta isto como uma rejeição da
comunhão com o bispo local, podendo dar a impressão que se contesta a
legitimidade das mudanças litúrgicas pós-Vaticano II.
Multiplicação dos frutos da Missa
A oposição à concelebração, especialmente
no modo como é praticada no Rito Moderno, não é apenas uma questão de
"gosto", mas baseia-se em argumentos teológicos e históricos profundos
sobre a natureza do sacerdócio e da Missa.
O argumento teológico mais forte
é o da multiplicação dos frutos da Missa.
Cada Missa tem um valor infinito
em si mesma, mas a sua aplicação ("fruto") é finita. Se dez padres
celebram dez Missas separadas, há dez atos de sacrifício oferecidos a Deus, dez
vezes mais graça e sufrágio para as almas.
Se esses mesmos dez padres
concelebrarem apenas uma Missa, há apenas um ato de sacrifício. Logo,
"perdem-se" nove Missas que poderiam ter sido oferecidas pela
salvação das almas ou por outras intenções específicas.
Na teologia católica, o padre
atua in persona Christi, na pessoa de Cristo.
Ora a concelebração
"dilui" esta realidade. Numa celebração individual, a identificação
do padre com o Único Sumo Sacerdote, Cristo, é clara na concelebração, onde
vários padres recitam as palavras da consagração em uníssono, os críticos veem
uma espécie de "coletivização" do sacerdócio que se assemelha mais a
uma assembleia do que ao sacrifício solitário de Cristo no Calvário.
Antes do
Vaticano II, a liturgia solene utilizava a estrutura do Celebrante, Diácono e
Subdiácono. Muitas vezes, quando não havia diáconos disponíveis, outros padres
vestiam as dalmáticas e serviam nestes papéis subalternos. Alguns sacerdotes
mais conservadores preferem esta hierarquia clara, onde cada clérigo tem uma
função distinta. Na concelebração, todos fazem "o mesmo", o que, para
os críticos, retira a beleza da ordem e da harmonia das funções litúrgicas.
Alguns sacerdotes contestam também
a ideia de que a concelebração moderna é um simples "regresso às
origens". Eles argumentam que a concelebração na Antiguidade era cerimonial,
ou seja, estar presente e consentir com o Bispo, e não sacramental, onde todos
consagrarem a hóstia ao mesmo tempo. Ainda há sacerdotes que acusam o movimento
litúrgico de "arqueologismo" — tentar ressuscitar práticas antigas de
forma artificial, ignorando o desenvolvimento orgânico da Igreja ao longo dos
séculos, que levou à celebração individual por boas razões teológicas.
Para os padres mais conservadores,
como a Missa é a representação incruenta do sacrifício do Calvário e que Nosso
Senhor Jesus Cristo estava só, a celebração individual, ou com apenas um
celebrante principal assistido por ministros, refletiria melhor a solidão de
Cristo no seu sacrifício. A imagem de um "grupo" de padres no altar
pode parecer, para alguns, uma "ceia comunitária" em vez de um
sacrifício no altar.
Portanto, a concelebração para os
padres mais conservadores é vista como uma prática que privilegia o aspeto
comunitário e social da Igreja em detrimento do aspeto sacrificial e da
eficácia sobrenatural de cada Missa individual.
Foto: Arquidiocese de Braga
