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sexta-feira, 24 de abril de 2026

A controvérsia sobre as Missas concelebradas

 


A prática da concelebração – quando vários sacerdotes celebraram a mesma Missa em conjunto – tem uma história curiosa. Ela é simultaneamente uma das tradições mais antigas da Igreja e uma das suas introduções modernas mais visíveis.

Para entender quando começaram, é preciso dividir a história em três fases principais:

1)      Nos primeiros séculos da Igreja, do século I ao XI, a concelebração era a norma, especialmente em torno do Bispo. Como havia apenas uma comunidade e um altar em cada cidade, os presbíteros rodeavam o seu Bispo e celebravam com ele como sinal de unidade da Igreja. A celebração não era exatamente como hoje, onde todos dizem as palavras da consagração em voz alta. Muitas vezes, os padres apenas rodeavam o altar em silêncio enquanto o Bispo presidia. A partir do século XI, com o aumento do número de padres e a necessidade de cada um celebrar a sua própria intenção de Missa – o que levou à criação dos altares laterais nas igrejas – a concelebração quase desapareceu no rito romano.

2)      Durante quase mil anos, entre o século XII e 1963, a concelebração tornou-se uma raridade extrema no Ocidente. Ficou restrita a apenas duas ocasiões solenes: a Missa da Ordenação Sacerdotal, quando os novos padres concelebravam com o Bispo que os acabava de ordenar; e a Missa da Consagração de um Bispo, quando o novo bispo concelebrava com os bispos que o consagravam. Fora estes dois casos, a regra era a celebração individual.

3)      A prática, tal como a conhecemos hoje, foi oficialmente "restaurada" e expandida pelo Concílio Vaticano II. No dia 4 de dezembro de 1963, o Sacrosanctum Concilium, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, permitiu que a concelebração fosse alargada a mais situações, como a Missa Crismal, quintas-feiras santas e reuniões de sacerdotes. No dia 7 de março de 1965, a Santa Sé publicou o Decreto Ritus Servandus, contendo as normas para a concelebração. Foi a partir deste momento que se tornou comum ver vários padres num altar, em qualquer paróquia, durante festividades ou congressos.

O objetivo dos Padres Conciliares foi sublinhar dois pontos teológicos:

  1. A Unidade do Sacerdócio: Mostrar que todos os padres participam no mesmo e único sacerdócio de Cristo.
  2. A Unidade do Sacrifício: Demonstrar que, embora haja muitos celebrantes, o sacrifício da Eucaristia é um só.

A concelebração continua a ser uma questão controversa, com alguns membros de institutos mais conservadores aprovados pela Igreja a recusarem-se a concelebrar nas Missas Crismais diocesanas anuais. A maioria do clero interpreta isto como uma rejeição da comunhão com o bispo local, podendo dar a impressão que se contesta a legitimidade das mudanças litúrgicas pós-Vaticano II.

Multiplicação dos frutos da Missa

A oposição à concelebração, especialmente no modo como é praticada no Rito Moderno, não é apenas uma questão de "gosto", mas baseia-se em argumentos teológicos e históricos profundos sobre a natureza do sacerdócio e da Missa.

O argumento teológico mais forte é o da multiplicação dos frutos da Missa.

Cada Missa tem um valor infinito em si mesma, mas a sua aplicação ("fruto") é finita. Se dez padres celebram dez Missas separadas, há dez atos de sacrifício oferecidos a Deus, dez vezes mais graça e sufrágio para as almas.

Se esses mesmos dez padres concelebrarem apenas uma Missa, há apenas um ato de sacrifício. Logo, "perdem-se" nove Missas que poderiam ter sido oferecidas pela salvação das almas ou por outras intenções específicas.

Na teologia católica, o padre atua in persona Christi, na pessoa de Cristo.

Ora a concelebração "dilui" esta realidade. Numa celebração individual, a identificação do padre com o Único Sumo Sacerdote, Cristo, é clara na concelebração, onde vários padres recitam as palavras da consagração em uníssono, os críticos veem uma espécie de "coletivização" do sacerdócio que se assemelha mais a uma assembleia do que ao sacrifício solitário de Cristo no Calvário.

Antes do Vaticano II, a liturgia solene utilizava a estrutura do Celebrante, Diácono e Subdiácono. Muitas vezes, quando não havia diáconos disponíveis, outros padres vestiam as dalmáticas e serviam nestes papéis subalternos. Alguns sacerdotes mais conservadores preferem esta hierarquia clara, onde cada clérigo tem uma função distinta. Na concelebração, todos fazem "o mesmo", o que, para os críticos, retira a beleza da ordem e da harmonia das funções litúrgicas.

Alguns sacerdotes contestam também a ideia de que a concelebração moderna é um simples "regresso às origens". Eles argumentam que a concelebração na Antiguidade era cerimonial, ou seja, estar presente e consentir com o Bispo, e não sacramental, onde todos consagrarem a hóstia ao mesmo tempo. Ainda há sacerdotes que acusam o movimento litúrgico de "arqueologismo" — tentar ressuscitar práticas antigas de forma artificial, ignorando o desenvolvimento orgânico da Igreja ao longo dos séculos, que levou à celebração individual por boas razões teológicas.

Para os padres mais conservadores, como a Missa é a representação incruenta do sacrifício do Calvário e que Nosso Senhor Jesus Cristo estava só, a celebração individual, ou com apenas um celebrante principal assistido por ministros, refletiria melhor a solidão de Cristo no seu sacrifício. A imagem de um "grupo" de padres no altar pode parecer, para alguns, uma "ceia comunitária" em vez de um sacrifício no altar.

Portanto, a concelebração para os padres mais conservadores é vista como uma prática que privilegia o aspeto comunitário e social da Igreja em detrimento do aspeto sacrificial e da eficácia sobrenatural de cada Missa individual.

Foto: Arquidiocese de Braga