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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Elisabeta Canori Moro: Uma beata que lutou heroicamente pela salvação do seu marido infiel

 


Atualmente, fala-se muito da misericórdia de que muitas famílias e cônjuges feridos ​​necessitam, sobrecarregados de problemas e conflitos que já não conseguem suportar. Talvez, no entanto, devêssemos falar primeiro da misericórdia que os mesmos cônjuges em crise poderiam humildemente exercer a partir do momento em que a família começa a fraquejar. Por vezes, para a salvar, bastaria até a misericórdia pacientemente exercida  por um só dos seus membros, capaz de esperar e de amar com esperança. Tal foi a história de Elisabetta Canori Mora (1774-1825)1 que o Papa São João Paulo II – em 1994, Ano Internacional da Família – quis beatificar juntamente com Gianna Beretta Molla, definindo-as ambas como “mulheres de amor heroico”.

 

O casamento entre Elisabetta, de uma nobre família romana, e o jovem e rico advogado Cristoforo Mora pareceu, a princípio, um conto de fadas que se tornou realidade. Disse que ficou impressionado com a sua beleza, tanto que jurou que nunca, mas nunca, procuraria outra mulher se ela se dignasse a aceitá-lo. E estava preocupado com o pensamento de que algo o pudesse manchar: a sua noiva não se devia cansar nem fazer qualquer trabalho que a pudesse desgastar. Nem sequer a deixava costurar ou bordar, para que os seus dedos não ficassem rígidos. E era também obsessivamente ciumento, tanto que impedia a esposa de ter qualquer contacto com os seus familiares.

 

Mas, passados ​​alguns meses, o ciúme obsessivo foi seguido por uma frieza glacial: tornou-se cada vez mais distraído e ausente; começou a abandonar a casa, a passar as noites noutros locais, até que a notícia de que se tinha envolvido com uma mulher de classe baixa, que o estava literalmente a gastar tudo o que recebia, correu a boca de todos. O jovem advogado nunca parecia ter dinheiro suficiente, e as suas perdas no jogo multiplicaram-se até que ficou reduzido à penúria.

 

Para pagar as dívidas crescentes de Christopher, Elizabete chegou ao ponto de se privar de todas as suas joias, mas o dinheiro parecia cair num poço sem fundo. Assim, incapazes de manter a casa de família a que estavam habituados, os dois tiveram de se mudar para um pequeno apartamento adjacente à casa rica dos sogros. Em total desrespeito pelo marido, Elizabete teve de se sustentar a si e aos filhos com o trabalho das suas mãos, e estava cada vez mais sozinha. Além disso, estava tomada por dores de estômago indescritíveis.

 

Mas aqui começou a sua esplêndida aventura mística. Esta “aventura” poderia ser interpretada de uma forma fácil, até banal: uma mulher traída pelo marido, incapaz até de criar os filhos, gravemente doente, privada de todo o afeto, sublima a sua angústia construindo para si um mundo espiritual, intenso, mas fictício.

 

Para quem tem fé, há uma explicação mais simples e luminosa. Sabemos que o matrimónio cristão, com todos os seus dons e graças, é um sacramento, isto é, um meio, um sinal de uma realidade maior e mais profunda. A realidade nela indicada é a do Amor de Jesus, Amante e Amado, que abraça juntos os dois esposos. Mas se um dos dois falha, porquê negar que Ele pode decidir mostrar a realidade do "casamento sagrado"?

 

Foi o que aconteceu a Elisabete: acolheu sacramentalmente o seu marido, que depois a negou e a traiu. Então o verdadeiro Esposo, o Único, decidiu retomar o lugar que lhe pertencia, e decidiu fazê-lo "sensivelmente", isto é, com alguma manifestação extraordinária da sua presença.  Assim, a vida mística de Isabel foi, pois, rica em orações, visões e irresistíveis transportes amorosos: viveu os seus dias em total união com o Senhor, desde quando ia à Santa Missa de manhã bem cedo e recebia a Comunhão todos os dias e depois, dedicava o resto do seu tempo a cuidar das meninas, a fazer as tarefas domésticas e a rezar.

 

Cristoforo quase nunca aparecia, regressava já noite cerrada, e Elizabeth estava sempre ali, acordada, à sua espera: decidira nunca discutir e dirigir-se-lhe apenas com boas palavras e algumas exortações para mudar de vida. No tempo livre que lhe restava, dedicava-se às tradicionais "obras de misericórdia": com a permissão da sogra (a única que a compreendia e apoiava), recolhia os restos de comida nas cozinhas para os pobres, ia aos hospitais visitar os doentes, não se furtando às tarefas mais humildes e repugnantes.

 

Denunciado por comportamentos imorais pelas irmãs que queriam garantir a herança da família, Cristoforo arriscou a prisão e só conseguiu evitá-la prometendo arrepender-se, mas voltou para junto da família ainda mais furioso, ao ponto de tentar matar a mulher. Mais tarde, disse que, de cada vez, sentia uma força superior a parar o seu braço.

 

Todos aconselharam Elizabete a sair de casa e a esconder-se em algum lugar, mas ela não quis. E os próprios familiares não conseguiam compreender como conseguia estar sozinha à noite com um marido que ameaçava matá-la. Elisabete tinha questionado o seu Senhor Jesus sobre isso e recebera como resposta "que eu não abandonasse estas três almas, isto é, as duas filhas e o marido, enquanto Ele as quisesse salvar por meio de mim"... Até o confessor, perante o risco que ela corria, sugeriu que ela se separasse do marido, mas ela respondeu: "Coloquei a salvação destas três almas à frente do meu ganho espiritual"; e tranquilizou-o dizendo que adormeceu rezando como uma criança: "O meu espírito descansou docemente nos braços do Senhor e um raio de luz envolveu-me e tornou este descanso seguro."

 

O mais incrível da história não é a referência ao raio de luz que a protegia, mas o facto de duas almas estarem em contacto conjugal tão próximo: uma imersa na escuridão ameaçadora do vício, a outra imersa na luz protetora da sua amizade conjugal com Cristo. E não se trata de duas histórias que se opõem e se anulam, mas de uma conjunção misteriosa.

 

Assim, a vida de Elisabete fluiu numa relativa serenidade – entre o trabalho, a oração e os seus filhos – tudo pontilhado de momentos de graça em que Jesus lhe ilustrou, com visões simbólicas, as mais belas verdades da fé. E quando as suas filhas cresceram e começaram a preocupar-se com a sua manutenção e comportamento, Jesus disse-lhe: “Não temas, pois Eu mesmo serei o teu pai e o dono da casa. De agora em diante não terá apenas o necessário para si e para a sua família, mas mais do que o suficiente.” Assim, por uma extraordinária conjugação de circunstâncias, aquela casa que não tinha conseguido tornar-se uma "igreja doméstica" devido às ausências do marido mulherengo e perdulário, tornou-se uma "verdadeira igreja" pela intervenção do Esposo celeste que decidira substituir pessoalmente o cônjuge faltoso. E os milagres foram inúmeros.

 

Entretanto, Elisabete inscreveu-se na Ordem Terceira dos Trinitários – uma antiga Ordem criada para a libertação dos cristãos reduzidos à escravidão – e da sua espiritualidade retirou uma paixão crescente pelos mais pobres e abandonados. A salvação de todos tornara-se a sua preocupação e, por isso, pedia com uma insistência cada vez maior a salvação do marido, que continuava a viver com a sua amante. Um dia, quando as suas filhas, exasperadas, desejavam o castigo divino à mulher que lhes tinha tirado o pai, Elisabete interveio "com força e energia", explicando às raparigas que deveriam "rezar sempre ao Senhor, dizendo-Lhe que queria ter ao seu lado no paraíso aquela mulher que atordoara o seu marido e lhe tinha causado tanto mal". Em vez disso, dirigiu um estranho desejo ao marido e disse-lhe: "A noite de Natal também chegará para ti", como se o único defeito do pobre homem fosse não ter sido ainda envolvido pela ternura da Encarnação. Há mais de um ano que ela vinha prevendo o dia exato da sua morte; De facto, Deus dera-lhe uma amostra disso momento a momento numa visão, e ela descreveu-o assim: "Parecia estar a morrer nos braços de Jesus e de Maria, desfrutando de um paraíso de contentamento". Quando o dia fatídico se aproximou, disse às suas filhas: "Estou a deixar-vos para irem ter com o vosso pai, Jesus de Nazaré", pelo que recomendou que respeitassem sempre o seu pai e o ajudassem sempre.

 

Morreu na data prevista, por volta das duas da manhã, e tinha acabado de completar cinquenta anos. Quando Cristoforo regressou a casa, por volta das quatro da manhã, nem queria acreditar que Elizabete já não estava viva. Ficou ali, encostado à parede, a soluçar, como se estivesse estupefacto. A partir desse dia, nunca mais foi o mesmo. Não contou a ninguém, mas pouco antes de Elizabete morrer, a sua amante também morreu nos seus braços. Tinha mudado: finalmente demonstrava interesse por tudo o que até então desprezava. Já não se preocupava com a sua elegância e com as suas roupas, passava longas horas na igreja e virava sempre o seu velho chapéu nas mãos, chorando. Pode dizer-se que orava com o chapéu no rosto. O facto é que, lá dentro, no fundo, tinha colado um retrato de Elizabete e ficava a olhar para ele e a chorar. Disse que "a tinha transformado numa santa com os seus abusos".

Nove anos se passaram desde a morte de Isabel, e uma notícia inesperada espalhou-se por Roma: um certo Padre celebrava a sua primeira missa na Ordem dos Frades Menores Conventuais. António, ordenado sacerdote excepcionalmente aos sessenta e um anos de idade, depois de ter completado, nessa venerável idade, todos os seus estudos teológicos. O nome Antonio era o que assumira na vida religiosa, mas no mundo era conhecido como "o advogado Cristoforo Mora": segundo a promessa de Elisabetta, também ele tinha finalmente tido "a sua noite de Natal". E morreria também – depois de onze anos de remorsos, orações e penitências passados ​​num convento – com fama de santo.

 

Vamos agora resumir a lição que toda a história nos transmite. A misericórdia de que a família necessita é, antes de mais, a de compreender que no matrimónio cristão tudo é sacramento: o amor que os dois cônjuges conseguem comunicar um ao outro é a parte bela do sacramento; o amor que o cônjuge não quer ou não consegue dar, com as dores que daí decorrem, deve tornar-se a parte virginal do sacramento, aquela que se refere diretamente a Cristo e invoca diretamente a sua presença. Se apenas um dos cônjuges tomar consciência disso, a vida será repleta de misericórdia e poderá ser repleta de milagres.

 

P. Redi, Elisabetta Canori Mora. Um amor fiel dentro das paredes da casa, Città Nuova, Roma 1994.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

O quarto Rei Mago


 


Artabano, este era o nome do quarto Rei Mago, que morava nas montanhas da Pérsia. Era um médico, alto, moreno, de olhos bem escuros: a fisionomia de um sonhador, a mente de um sábio. Um homem de coração manso e espírito indomável.

Era um homem de posses. A sua moradia era rodeada de jardins bem tratados com árvores de frutas e flores exóticas. As suas vestes eram de seda fina e o seu manto da mais pura lã. Era seguidor de Zoroastro e numa noite se reuniu em conselho com nove membros da mesma seita. Eram todos sábios!

Artabano falou-lhes sobre a nova estrela que vira e o seu desejo de segui-la. Disse-lhes:

-- Como seguidores de Zoroastro aprendemos que os homens vão ver nos céus, em tempo apontado pelo Eterno, a luz de uma nova estrela e nesse dia, nascerá um grande profeta e Ele dará aos homens a vida eterna, incorruptível e imortal, e os mortos viverão outra vez! Ele será o Messias.

E continuou:

-- Os meus três amigos Gaspar, Melchior, Baltazar e eu, vimos a grande luz brilhante de uma nova estrela há vários dias e vamos sair juntos para Jerusalém para ver e adorar o Prometido, o Rei de Israel. Vendi a minha casa e tudo o que possuo e comprei estas joias: uma safira, um rubi e uma pérola para oferecer como tributo ao Rei. Convido-os para virem comigo nesta peregrinação para juntos adorarmos o rei!”

Artabano preparou o seu melhor cavalo, chamado Vasda, e de madrugada saiu às pressas, a fim de poder encontrar-se no dia e na hora marcados com Gaspar, Melchior e Baltazar, que já estavam a caminho, ele precisava cavalgar noite e dia. A noite começou a cair e faltavam mais ou menos três horas de viagem para chegar ao sítio de encontro, quando na estrada, perto de umas palmeiras, o seu cavalo Vasda, pressentindo alguma coisa desconhecida, parou junto a um objeto escuro perto da última palmeira. A luz das estrelas revelou a forma de um homem caído na estrada. Um pobre hebreu entre os muitos que moravam por perto. Compadecido, Artabano tratou-o por muitos dias, oferecendo-lhe pão, vinho, e ervas curativas.

O hebreu recuperou-se e erguendo as mãos aos céus disse:

-- Que o Deus de Abraão, Isaac e Jacó o abençoe. Nada tenho para lhe pagar, mas ouça-me: Os nossos profetas dizem que o Messias deve nascer, não em Jerusalém, mas em Belém de Judá.

Assim, já era muito mais de meia-noite e vários dias de atraso, quando Artabano montou de novo no seu cavalo Vasda e num galope rápido prosseguiu ao encontro dos seus amigos.

Aos primeiros raios do sol, chegou ao lugar do encontro. Mas… onde estavam os três magos? Artabano desmontou e ansioso, estudou todo o horizonte. Nem sinal da caravana de camelos dos seus amigos! Então entre uma pilha de pedras achou um pergaminho e a mensagem:

-- Não pudemos esperar mais, vamos ao encontro do Rei de Israel. Siga-nos através do deserto.

Artabano entrou no deserto e finalmente chegou em Belém, levando o seu rubi e a sua pérola para oferecer ao Rei. Mas as ruas da pequena vila. pareciam desertas. Pela porta aberta de uma casinha pobre, Artabano ouviu a voz de uma mulher cantando suavemente. Entrou e encontrou uma jovem mãe acalentando o seu bebé.

Três dias passados Ela falou-lhe sobre os três magos que estiveram na vila a que disseram terem sido guiados por uma estrela ao lugar onde José de Nazaré, sua esposa Maria, e o seu bebé Jesus estavam hospedados. Eles trouxeram prendas de ouro, incenso e mirra para o menino. Depois, desapareceram tão rapidamente quanto apareceram. E a família de Nazaré também saiu à noite, em segredo, talvez para o Egito.

O bebé que estava nos seus braços fitou o rosto de Artabano e sorriu-lhe e estendeu-lhe os seus bracinhos.

A Jovem mãe colocou o bebê no leito e preparou um almoço para o estranho hóspede que veio à sua casa. Subitamente, ouviu-se uma grande comoção nas ruas: gritos de dor, o chorar de mulheres, tocar de trombetas e o clamor:

-- Soldados! os soldados de Herodes estão a matar as nossas crianças!

A jovem mãe, branca de terror, escondeu-se no canto mais escuro da casa, cobrindo o filho com o seu manto para que ele não acordasse e chorasse.

Mas Artabano colocou-se em frente à porta da casa impedindo a entrada dos soldados. Um capitão aproximou-se para afastá-lo. A face do rei mago estava calma como se estivesse a observar as estrelas. Fitou o soldado e disse-lhe:

-- Estou sozinho aqui e à espera para dar esta joia ao prudente capitão que vai deixar-me em paz.

E mostrou o rubi brilhando na palma da sua mão como uma grande gota de sangue.

Os olhos do capitão brilharam com o desejo de possuir tal joia!

- Marchem, avancem, pois não há criança aqui!” Gritou aos seus soldados.

E Artabano voltando-se para os Céus rezou:

-- Deus da Verdade, perdoa o meu pecado! Eu disse uma coisa que não era, para salvar uma criança. E duas das minhas dádivas já se foram. Dei aos homens o que havia reservado para Deus. Poderei ainda ser digno de ver a face do Rei?

E Artabano prosseguiu na sua procura entre as pirâmides do Egito, em Heliopólis, na nova Babilónia às margens do Nilo… Numa humilde casa em Alexandria, procurou o conselho de um velho rabi que lhe falou das profecias e do sofrimento do Messias prometido e rejeitado pelos homens. E lembrou-se que o Rei que procurava não O ia encontrar num palácio ou entre os ricos e poderosos, mas entre os pobres e os humildes, os que sofrem e são oprimidos.

E Artabano passou por lugares onde a fome era grande. Fez a sua morada em cidades onde os doentes morriam na miséria. Visitou os oprimidos nas prisões subterrâneas, os escravos nos mercados de escravos…

Em toda a população de um mundo cheio de angústia ele não achou ninguém para adorar, mas muitos para ajudar! Ele alimentou os que tinham fome, cuidou dos doentes, e confortou os prisioneiros… E os anos passaram… 33 anos.

E os cabelos de Artabano já não eram pretos, eram brancos como a neve nas montanhas. Velho, cansado e pronto para morrer era ainda um peregrino à procura do Rei de Israel e agora em Jerusalém onde tinha estado muitas vezes na esperança de achar a família de Belém.

Os filhos de Israel estavam agora na cidade santa para a festa da Páscoa do Senhor e havia uma agitação e excitamento singular. Vendo um grupo de pessoas da sua terra, Artabano perguntou-lhe o que se passava e para onde o povo se dirigia.

-- Para o Gólgota! Dois ladrões vão ser crucificados e com eles, um homem chamado Jesus de Nazaré, que dizem ter feito coisas maravilhosas para o povo. Mas os sacerdotes exigiram a Sua morte, porque disse ser o Filho de Deus. Pilatos O condenou a ser crucificado porque disseram ser Ele o Rei dos Judeus - responderam-lhe.

-- Os caminhos de Deus são mais estranhos do que o pensamento dos homens, pensou Artabano. “Agora é o tempo de oferecer a minha pérola para livrar da morte o meu Rei!”

Ao seguir a multidão em direção ao portal de Damasco, um grupo de soldados apareceu arrastando uma jovem rapariga com vestes rasgadas e o rosto cheio de terror.

Ao ver o mago, a jovem reconheceu-o como da sua própria terra e libertando se dos guardas atirou-se aos pés de Artabano:

-- Tende piedade! Pelo Deus da pureza, salvai-me! Meu pai era mercador na Pérsia, mas faleceu e agora serei vendida como escrava para pagar seus dívidas! Salvai-me!

Artabano tremeu. Era o velho conflito da sua alma entre a fé, a esperança e o impulso do amor. Duas vezes as dádivas consagradas foram dadas para a humanidade. E agora? Uma coisa ele sabia:

-- Salvar essa jovem indefesa era um gesto de amor. E não é o amor a luz da alma?

Ele tirou a pérola de junto do seu coração. Nunca ela pareceu tão luminosa! Colocou-a na mão da jovem:

-- Este é o teu pagamento, o último dos tesouros que guardei para o Rei!

Enquanto ele falava uma escuridão profunda envolveu a terra que tremeu consultivamente! Casas caíram, os soldados fugiram, mas Artabano e a jovem protegeram-se debaixo do telhado sobre as muralhas do Pretório.

-- O que tenho a temer? - pensou. E para quê viver? Não tenho mais esperança de encontrar o Rei, a procura terminou, eu falhei.

Mas mesmo esse pensamento trouxe-lhe paz, pois sabia que tinha vivido cada dia da sua vida da melhor maneira que soube. Se tivesse que viver de novo a sua vida não poderia ser de outra maneira.

Mais um tremor de terra e uma telha desprendeu-se do telhado e feriu o velho mago na cabeça. Repousou no chão e deitou a cabeça nos ombros da jovem com o sangue a escorrer do ferimento.

Ao debruçar-se sobre ele, ela ouviu uma voz suave, como música vindo da distância. Os lábios de Artabano moveram-se como em resposta e ela escutou o que o velho mago disse na sua própria língua:

-- Não meu Senhor! Quando Vos vi com fome e Vos dei de comer? Ou com sede e Vos dei de beber? Ou quando Vos vi enfermo ou na prisão e fui visitar-Vos?

Por 33 anos, procurei-Vos, mas nunca vi a Vossa face, nem Vos servi, meu Rei!

E uma voz suave fez-se ouvir, mas desta vez dos Céus. A jovem também compreendeu as palavras: “Em verdade, em verdade vos digo que quando o fizeste a um destes meus irmãos a Mim o fizeste!”.

Uma alegria radiante iluminou a face calma de Artabano. Um suspiro longo e aliviado saiu dos seus lábios. A viagem para ele tinha terminado. O quarto mago compreendeu que tinha encontrado o seu Rei durante toda a sua vida!

Henry Van Dyke


domingo, 1 de dezembro de 2024

Santo André protege um bispo



 Hoje, 30 de novembro, celebramos a festa de Santo André, irmão de São Pedro, no começo, discípulo de São João Batista e depois de Nosso Senhor Jesus Cristo, de quem foi o primeiro discípulo.


Santo André quase não aparece no Evangelho. Pronuncia algumas palavras na cena da multiplicação dos pães. É ele que diz: “Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas o que é isto para tanta gente?” (Jo 6,9). Em escritos apócrifos, aprendemos que, depois da dispersão dos Apóstolos, Santo André dirigiu-se ao país dos citas, povo iraniano de pastores nómades, que evangelizou, depois desceu à Grécia, onde, na Tessália, conheceu São Mateus. Finalmente teria ido ao Peloponeso e teria evangelizado a cidade de Patras. Aí converteu muitos pagãos, entre os quais se encontrava Maximila, esposa do procônsul Egeas. Este magistrado fez com que o apóstolo comparecesse perante o seu tribunal e, dizem os Actos apócrifos, Santo André falou-lhe da Paixão de Jesus Cristo, acrescentando que a cruz era um grande e formidável mistério. “A cruz”, respondeu Egeas, “não é um mistério, mas uma tortura. Farei com que também experimenteis este mistério”, e ordenou aos seus homens que prendessem André e o amarrassem à cruz pelas mãos e pelos pés, para que sofresse mais tempo. Quando André viu a cruz, em forma de X, cumprimentou-a de longe, dizendo: “Ó santa cruz, venho até Vós cheio de segurança e alegria para que que recebas o discípulo daquele que em Vós morreu. Ó venerável cruz, fazei com que volte para o meu mestre! “.

 

Um facto muito bonito é relatado sobre a proteção de Santo André.

 

Um bispo que levava uma vida piedosa e tinha uma veneração muito particular por Santo André, chegou ao ponto de ter o piedoso costume de escrever no cabeçalho de todas as suas obras: “Em honra de Deus e de Santo André.”

 

O demónio, que não suportava a virtude deste santo homem, quis atacá-lo e assumiu a aparência de uma mulher de maravilhosa beleza. Ela foi ao palácio episcopal e manifestou o desejo de se confessar. O bispo consentiu e ela revelou-lhe ser filha de um grande rei e que tinha fugido da casa paterna porque seu pai a queria casar com um jovem príncipe. “Dediquei-me a Jesus Cristo”, disse-lhe ela, “e venho refugiar-me sob as suas asas, na esperança de poder encontrar um refúgio tranquilo para poder levar uma vida contemplativa”.

 

O bispo, admirado com tamanho fervor numa pessoa tão bonita e com tanta firmeza e tanta eloquência, tranquilizou-a e convidou-a a partilhar a sua refeição. Sentaram-se então à mesa e ela sentou-se à sua frente; os outros convidados colocaram-se à sua direita e à sua esquerda, e o bispo tinha os olhos fixos na senhora, não deixando de contemplar a sua beleza. Ao ao sentir prazer nesta contemplação, o demónio, inimigo da raça humana, infligiu-lhe uma grave ferida no coração.

 

De repente ouve-se um estranho a bater com força à porta e a pedir, em voz alta, que se lhe deixassem entrar. O bispo perguntou à senhora se concordava em receber aquele estranho. Ela respondeu: “Antes de o recebermos, devemos fazer-lhe algumas perguntas um pouco difíceis. Propomos-lhe, pois, dois enigmas que é inútil contar e que o estranho soube resolver perfeitamente. A mulher disse então: “Façamos-lhe uma terceira pergunta, muito difícil, pergunte-lhe qual é a distância entre a terra e o céu. O estranho respondeu ao mensageiro incumbido de lhe fazer a pergunta: “Diga-lhe que responda ela mesma, pois viajou pelo espaço que separa a terra do céu, quando foi lançada do céu para o abismo”.

 

Quando o enviado relatou as palavras do estranho, a mulher desapareceu subitamente e todos ficaram surpreendidos. O bispo quis conhecer o estranho, mas este tinha desaparecido também e não foi encontrado.

 

Nessa mesma noite foi revelado ao bispo que este estranho era Santo André que viera em socorro do seu devoto.

 

Nossa Senhora é seguríssimo refúgio e fidelíssimo auxílio de todos os que estão em perigo. Não há mãe verdadeiramente católica que não sinta receio pelo que possa suceder a seu filho. Ora, Maria Santíssima, a melhor de todas as mães, quanta solicitude não terá para com os seus filhos que vivem neste mundo, sujeitos a toda a sorte de riscos?

 

Plinio Corrêa de Oliveira

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

A morte de um fundador


"A morte de um fundador de ordem religiosa ou congregação quase sempre ocorre entre sinais ou associações à santidade por seus filhos espirituais, que buscam nas graças dos céus concedidas a ele, o reforço da missão à qual dedicou a vida e sobre a qual se dedicarão, a partir dali, os seus membros a exemplo do fundador. Nem sempre, porém, os sinais são tão evidentes ou claros quanto o que vimos no final da última semana, diante do falecimento do fundador dos Arautos do Evangelho.

"Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, 85 anos, morreu na sexta-feira, 1 de novembro. Fundador dos Arautos do Evangelho, a entrega de sua alma ocorreu em meio a diversos sinais vistos por muitos, e diante dos quais não pairam dúvidas. Em primeiro lugar, se dá um dia após o aniversário de sua Primeira Comunhão, ocasião em que pôde receber também pela última vez o Corpo de Cristo. Aos que acusam os Arautos de uma devoção exagerada ou veneração precipitada ao fundador, não se pode dizer que essa coincidência foi inventada por eles. Depois, o dia 1 de novembro, data em que o mundo inteiro celebra o Dia de Todos os Santos, exceto no Brasil, terra do Monsenhor, que repete talvez o ditado que “santo de casa não faz milagres”. O Brasil é conhecido por ter seus heróis valorizados mais fora do que dentro de nossas fronteiras, ao menos oficialmente: a Igreja, no Brasil, transfere a solenidade para o domingo seguinte, diferente da maior parte da Igreja Católica no mundo. Ainda assim, a Solenidade do domingo marcou a despedida e última missa exequial do Fundador que teve como mestre espiritual Plinio Corrêa de Oliveira, também chamado fora do Brasil pelo título de Cruzado do Século XX.

"Uma foto que vem circulando entre seus membros mostra um arco-íris bem acima da Basílica em que foi velado o corpo do Monsenhor, na cerimônia de três dias que se encerrou neste domingo. Esta simbologia poderia ser comparada àquela de uma outra foto, a do famoso raio no Vaticano. O raio como símbolo do castigo e o arco-íris, da esperança. A tibieza de parte do clero será certamente cobrada com altos juros, ao passo que a verdadeira esperança que a Igreja oferece é aquela de sempre: o desejo pela santidade pela radicalidade do serviço às almas, do apostolado vivo que parece só poder renascer no mundo quando há uma ordem forte e devota de seu fundador. O amor ao fundador é, ao contrário do que prega a malícia do mundo, o fermento da verdadeira ação da graça na Igreja, tendo disso tanto exemplos na história: jesuítas, franciscano, dominicanos e tantos outros, que tiveram seus fundadores como sinais visíveis de Deus na Terra.

"A estrutura criada pelos Arautos do Evangelho tem sido fundamental para a manutenção da vida religiosa, por meio de uma criteriosa educação católica de meninos e meninas, buscando a preservação da inocência e a verdadeira formação para a santidade entre uma multidão crescente de famílias. Neste crescimento, decerto um tanto silencioso, avança aquela contrarrevolução sonhada por Plinio Correa, posta em ação de maneira ainda mais profunda por Monsenhor João ao seguir radicalmente os passos de seu mestre, o seu fundador.

"O exemplo contrarrevolucionário dos Arautos deveria servir de grande alerta e admoestação a todos os que pensam enfrentar um mundo moderno anticristão por meio de suas próprias forças, sejam políticas, retóricas ou intelectuais, esquecendo-se que todo sucesso vem de Deus e que ninguém vencerá absolutamente nada sem estar radicalmente unido a Ele. E esta união, defendida por Plinio Corrêa, só poderia ser feita através da Virgem Maria, Mãe do Redentor, canal de graças por onde o próprio Deus quis vir ao mundo e forma perfeitíssima de acesso a Ele neste mundo. Não por acaso, todas as obras marianas da história da Igreja tiveram uma profusão de graças e realizações incríveis, sendo, porém, igualmente perseguidas em alguma medida pelas forças das trevas representadas pelos poderes deste mundo.

"Os Arautos são radicais na devoção à Eucaristia: seus membros, religiosos, religiosas e sacerdotes, recebem o Corpo de Cristo duas vezes por dia, o máximo que é permitido. Isso se deve a uma percepção do fundador, de que, se o mundo amplia a cada dia as oportunidades de pecado, como vemos, é preciso que se amplie ainda mais as oportunidades de graça, sob pena de não perseverar. Para eles, que são tidos como exagerados e radicais por um mundo indiferente e tíbio, uma alma que não se esforce ao máximo para obter a santidade por meio da graça, disponível exclusivamente na Igreja Católica, não mantém estabilidade nem mesmo na obediência aos 10 mandamentos, não podendo, portanto, salvar-se. Esta perceção vem de Plinio Corrêa, que viu o mundo caminhar pelos passos da Revolução, que evoluiria até o culto ao demônio em sua mais radical literalidade. Se vemos, hoje, o mal se apresentar de maneira cada vez mais radical, não é na radicalidade que os bons precisam se enfileirar?

"A metáfora da guerra, da batalha, sempre foi a que mais santificou na Igreja. Esta combatividade, no entanto, recebeu um recuo gigantesco no século XX, sendo esta a razão principal da crise atual e não outra".

Cristian Derosa, Instituto Estudos Nacionais

Jornalista e escritor, autor do livro O Sol Negro da Rússia: as raízes ocultistas do eurasianismo, além de outros 5 títulos sobre jornalismo e opinião pública. Editor e fundador do site do Instituto Estudos Nacionais

Falece um exímio formador, verdadeiro guerreiro de Maria Santíssima, filho espiritual de Plinio Correa de Oliveira e pai de uma grande família de almas


 Depois um longo período de sofrimento, no dia 1 de novembro de 2024, Solenidade de Todos os Santos, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, fundador dos Arautos do Evangelho, entregou a sua alma a Deus.

Não há maior amor do que sofrer e oferecer a sua vida pela Santa Igreja, pelos seus filhos espirituais e por uma Obra que congrega quase duzentos sacerdotes, milhares de religiosos e religiosas, bem como centenas de milhares de leigos, de famílias que vivem intensamente a vida cristã, segundo o carisma dos Arautos, em mais de 70 países.

O Salmista recorda que “Deus é admirável nos seus santos” (Sl 67, 36) e é verdade que Ele continua a “fazer” coisas extraordinárias através de homens bons e fiéis. Hoje os nossos pensamentos e as nossas orações voltam-se de forma particular para Mons. João Clá. Todos aqueles que tiveram a felicidade de serem formados por ele, de terem aprendido a amar a Sagrada Eucaristia e a louvar Nossa Senhora, a consagrarem-se a Ela, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, graças a ele, manifestam com filial veneração a sua eterna gratidão a um exímio formador e um verdadeiro guerreiro da Santíssima Virgem.

Do Céu, certamente, Mons. João Clá continuará a inspirar os Arautos do Evangelho a fim de que sejam sempre fiéis ao seu carisma, que continuem a formar a juventude e que lutem pelo triunfo do Imaculado Coração de Maria, como Nossa Senhora prometeu em Fátima.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Nossa Senhora pede-nos o oferecimento da vida sem vermos a vitória

 



Deus quer almas que se Lhe entreguem inteiramente (...) para serem aventureiros da Virgem Maria, mas aventureiros de uma aventura singular, porque é uma aventura que tem consigo a certeza de que haverá risco, mas que haverá vitória! Não há dúvida sobre a vitória. Não há dúvida sobre o êxito inteiro da ação empreendida.

Sabemos que haverá muitos obstáculos. Mas, para além dos obstáculos, veremos a Santíssima Virgem, a Nossa Senhora dos Milagres, que pode fazer milagres, e que tem feito e que fará ainda. Ela pode fazer milagres para vencer. Mas a nossa aventura é tal que, ainda que se tenha que operar milagres, ela será conduzida a bom resultado.

Onde está Nossa Senhora não há derrotas possíveis, depois disso vem necessariamente uma pergunta de Deus, uma pergunta de Nossa Senhora: "Meu filho, pedi-te que entres nessa aventura. Tu entrastes na aventura porque te parecia boa, porque te parecia formosa. Foste atraído pela aventura. Mas Eu queria saber se o teu amor por Mim é tão grande, que mesmo que essa aventura não tivesse resultado, mesmo que não produzisse consequências, mesmo que tu e os teus companheiros de ação devêsseis ser derrotados, ignorados pela História, sob o riso dos Meus inimigos, esmagados para a Minha glória, para serdes heróis no Reino dos Céus e exclusivamente por amor a Mim, sem pensar nos resultados terrenos, Eu quero saber se o vosso entusiasmo, se a vossa dedicação iria bastante longe para aceitar também este risco. Aceitar também a possibilidade de um holocausto completo, de um oferecimento da vida, com a aceitação do insucesso. Ou seja, o oferecimento da vida, a aceitação da morte, sem ter a certeza da vitória".

Houve tantos e tantos que assim morreram pela Igreja. Pensem nos Cristeros do México no século passado. Pensem nos Chouans da França. Pensem nos carlistas da Espanha, pensem nos heróis da Reconquista castelhana, da Reconquista portuguesa. Esses heróis, na maior parte dos casos, morreram nos séculos da reconquista, durante os quais não tinham a certeza de que afinal os católicos venceriam os mouros. Não tinham certeza de que a guerra santa, na qual morriam, ia vencer.

Mas, eles aceitavam a morte com um olhar sobrenatural. Não lhes importava a vida, não lhes importava a glória terrena. Eles queriam o sacrifício, a integridade da sua dedicação a Nossa Senhora. E é porque a sua dedicação foi levada até este ponto que Nossa Senhora lhes deu a coroa. Porque a coroa da vitória final deve ser dada não aos que aceitam a luta para obter a vitória, mas para aqueles que aceitaram a luta, mesmo que não tivessem a vitória! Estes merecem a vitória.

Um que entra para uma luta olhando mais para a vitória que para o ideal, olhando mais a satisfação do amor-próprio de ser um vencedor, do que os direitos da Rainha destronada, pela qual é necessário morrer, este não tem condições de alma para ser uma pedra viva do Reino de Maria.

O Reino de Maria vencerá. O Reino de Maria será edificado, e será uma construção ainda mais magnífica do que a Idade Média! Mas, esta construção só terá sua força, se for edificada sobre homens absolutamente desinteressados! Homens capazes, na luta de todos os dias, de dizer duas coisas simultâneas a Nossa Senhora: "Minha Mãe, eu creio na vossa promessa e eu creio no sucesso, mas, minha mãe, mesmo que não me devesses dar o sucesso, eu igualmente lutaria por Vós, porque sois minha Mãe, e eu não quero o meu sucesso, mas o vosso. E se outros terão de colher o sucesso, eu terei semeado o sucesso pela minha dedicação, eu estarei contente, minha Mãe, porque terei vivido e terei morrido herói anônimo por Vós".

Esta é a prova de dedicação que Nossa Senhora nos pede. É de ter este estado de espírito, por onde ao mesmo tempo temos a certeza da vitória, mas sejamos completamente desapegados da vitória.

E qual é a maneira pela qual esta prova se dará? Ela dar-se-á pela vida de todos os dias. Há de suceder, necessariamente, que os senhores terão dificuldades. Há de suceder que rirão dos senhores. Há de suceder que em muitas ocasiões, os senhores comecem atividades apostólicas e não tenham o sucesso imediato. Há de suceder que algumas vezes, pela miséria humana, os senhores se entendam mal uns com os outros, e que haja dificuldades inclusive entre os senhores. Há de haver momentos em que não acontece nada de novo.

E os senhores veem então grandes forças internacionais, imensas que parecem furacões, que se levantam contra a Igreja Católica e a Civilização Cristã! E os senhores sentir-se-ão pequenos.

Nesse momento a vossa vocação vai ser posta à prova. E nesses momentos é preciso não ter indecisão, não ter nenhuma forma de dúvida. Ter uma dedicação completa. Vós deveis dizer: "Eu estou certo de que mais cedo ou mais tarde o sucesso virá. Eu esperarei o sucesso rezando, aceitando os insucessos parciais com coragem de um verdadeiro lutador, porque um dia Nossa Senhora me ajudará"!

Plinio Corrêa de Oliveira

Os fracassos da educação nascem do esquecimento do fim último das crianças



A edução das crianças depende do conceito da vida. Vive-se como se pensa e educa-se como se vive, ou como os meios de comunicação de massas diz que vivemos ou devemos viver. E este conceito da vida envolve uma doutrina da educação e toda doutrina de educação baseia-se numa filosofia de vida que, no fundo, pode ser resumida em duas perguntas: Que é o homem? Para que está neste mundo?

As diferentes respostas a estas perguntas indicam os rumos que as sociedades dão à educação.

Para nós católicos as respostas são simples.

Que é o homem? Ele é um ser composto de corpo e de alma, portanto, com inteligência, vontade e sensibilidade. Ele é uma pessoa irredutível e membro de uma família, uma pequena sociedade onde nasce, depois escolhe uma profissão e trabalha, finalmente, vive, seguindo as leis e regras do Estado. Como tem uma alma imortal, é filho do tempo, mas destinado à eternidade. Senhor absoluto dos seus atos, pelo livre-arbítrio, mas súdito incondicional de Deus, e submisso às justas leis da sociedade em que vive. O homem, com instintos que pedem satisfação, tem por outro lado, exigências morais que o obrigam a usar dos instintos dentro de normas que os precedem e transcendem. É um ser composto de fraquezas e de forças, de egoísmos e generosidades, possuindo entrelaçadamente como já referi, o intelecto, a vontade e sensibilidade, que se distinguem, mas não se separam, pelo contrário, ligam-se e completam-se numa maravilhosa unidade.


Para que está neste mundo?

O homem foi criado por Deus, inocente e puro. Mas caiu. Quando a mão de Deus o ergueu, pela misericórdia da Redenção, já não era o mesmo. A queda não apenas lhe arrebatara a graça santificante e os dons preternaturais, como também desequilibrou o seu próprio funcionamento natural. As paixões desordenam-se, inclinando-o para o mal. Ele ficou com a inteligência turvada, a vontade enfraquecida, tornando-o incapaz de praticar o bem. Mesmo reconduzido à graça, pelo batismo, pesam-lhe as consequências da queda. Correspondendo à graça, pode, com algum esforço, manter o equilíbrio, vivendo no bem e na virtude. Tendo sido criado para o Céu, vive desgostoso e insatisfeito na terra, de tal maneira inquieto que só sossega, quando descansa em Deus. Dir-se-ia que sente uma nostalgia da Casa Paterna, uma como saudade daquelas tardes em que o Senhor descia a passear com ele no Paraíso (Gn 3, 8). Na verdade, nunca se esqueceu que Deus é o seu primeiro princípio e o seu último fim.

Só com esta visão completa do homem, estaremos em condições de proporcionar às crianças uma educação integral. Encarando o homem como ele é, podemos torná-lo como deve ser. Deveria ser, portanto, dever do educador explicar e apresentar aos pequenos a multiplicidade das suas funções orgânicas e espirituais, no seu destino terreno e eterno, nas suas atividades individuais e sociais, a fim de que aprendam uma hierarquia de valores, que lhes dará um rumo certo à educação, não deformando o conjunto, nem perturbando a harmonia das suas finalidades.

A criança deve aprender que tudo existe em vista de um fim. Nas várias finalidades humanas, uma deve dominar a todas e é, por isso mesmo, o motivo primeiro e último da existência. Todos os fins particulares, importantes que sejam, devem subordinar-se e servir a este último fim, cuja consecução deve ser a maior preocupação da vida, o seu verdadeiro ideal. Isto é de tal modo vital, que a vida só tem sentido em vista deste fim: perdido ele, tudo fica perdido, mas se for alcançado, tudo se ordena, e até os fins secundários são mais facilmente atingidos.

Portanto, a salvação da alma domina e deve canalizar tudo. Temos um fim último eterno, que, por isto, constitui toda a nossa felicidade e cuja perda é para nós a suprema desgraça. Mas, nem por isso se desfazem os demais fins da vida. Pelo contrário, convergem e orientam-se todos para ele.

Este é o verdadeiro conceito do homem e da vida e, por ele, devemos educar os nossos filhos e netos: “Cuidar do corpo para servir à alma. Cuidar da inteligência para servir à vontade; cuidar da vontade para servir a Deus”.

Os fracassos da educação nascem do esquecimento do fim e dos meios sobrenaturais para atingi-lo. E aquele homem do dever, senhor de si, de vontade firme, em busca de perfeição, por mais que se façam esforços, não se consegue sem o ideal cristão, o amparo da oração, a força dos sacramentos. Na educação, como em tudo, é cabal a palavra do Divino Mestre: “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5).

É pena que, em lugar de impulsionar as crianças para Deus, sejam alguns “educadores” os primeiros a extinguir neles o Espírito, penetrando-as de ideais errôneos e enchendo-lhes de terra o coração. A criança em sua recetividade generosa é campo fecundo para a impregnação cristã. Facilmente, poder-se-ia comunicar o conceito cristão da vida, uma vontade disposta a fazer o bem, na intenção de fazer sempre o agrado do Pai (Jo 20, 9-29).

sábado, 19 de outubro de 2024

O poder da oração


 

Onde, pergunto-me, encontrar um tesouro maior do que a oração? Onde podemos encontrar uma mina mais rica e fecunda? 

Ouçam, novamente, o que diz outro doutor, muito religioso e santo, ao tratar do mesmo assunto: 

“Na oração, a alma purifica-se do pecado, a caridade nutre-se, a fé enraíza-se, a esperança fortalece-se, o espírito alegra-se, a alma derrete-se de ternura, o coração é purificado, a verdade é descoberta, a tentação é vencida, a tristeza foge, os sentidos são renovados, a tibieza desaparece, a ferrugem dos vícios é consumida; desta prática surgem também faíscas vivas, desejos ardentes do Céu, e entre essas faíscas arde a chama do amor de Deus". 

São grandes, é preciso admiti-lo, as excelências da oração e os seus privilégios são admiráveis! A ela os Céus abrem-se, a ela revelam-se segredos, à sua voz o ouvido de Deus está sempre atento. Não direi mais nada. Isto é suficiente para termos uma ideia do fruto deste santo exercício.

São Pedro de Alcântara, Padroeiro do Brasil

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Oração do Professor Dr. Plinio Corrêa de Oliveira ao Anjo da Guarda

 


Meu Santo Anjo da Guarda, sei que dentro dos planos divinos deveis, pelos desígnios de Deus, exercer especial papel na realização da minha vocação. Vós, com todos os Espíritos Celestes, possuís uma missão altíssima na luta contra a Revolução (do bem contra o mal no mundo). Dirijo-me a todos vós tendo presente a vinculação que estas circunstâncias estabelecem honrosamente de mim para convosco.

Em nome desse vínculo, suplico-vos: “Obtende da Rainha do Céu que a vossa ação se intensifique e tome toda a magnitude proporcionada com as minhas debilidades, infidelidades, fraquezas, com o meu desejo de servir inteiramente a Causa da Igreja Católica e da Civilização Cristã”.

Peço-vos, portanto, que intervenhais quanto antes sobre as pessoas e os acontecimentos de maneira que, libertos da ação do demónio, a qual hoje atingiu um auge, possamos pertencer-vos inteiramente e ser os vossos guerreiros na grande luta espiritual que se aproxima.

Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira

Oração de Santo Ildefonso a Nossa Senhora


 Ó doce Virgem, iluminadora dos corações, curai a minha cegueira, iluminai a minha fé, fortificai a minha esperança, ascendei em mim a caridade ... Como aurora brilhante que precedeu o Sol eterno, esclarecei o mundo com a luz da graça, iluminai a Igreja com o brilho das vossas virtudes.

Ó gloriosa Soberana, sois Aquela que a Escritura fala nos seguintes termos: “Deus disse: Que a luz exista, e a luz existiu”. Ó luz pura, luz encantadora, luz que ilumina o céu, fazendo tremer o inferno! Luz que traz de volta os perdidos, fortifica aqueles que desanimam, alegra os Anjos e todos os Santos da Corte Celeste! Ó luz reveladora dos mistérios que mostrai as coisas escondidas e dissipai as trevas! Fazei-nos ver os nossos pecados, reerguei o que em nós está em ruínas, dissipai as nossas trevas, curai os doentes, conduzi os pecadores às vias da penitência.

Santo Ildefonso, sermão 17